{"id":131266,"date":"2025-04-01T10:35:10","date_gmt":"2025-04-01T13:35:10","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=131266"},"modified":"2025-04-01T10:35:12","modified_gmt":"2025-04-01T13:35:12","slug":"golpe-de-1964-manutencao-de-tutela-militar-permitiu-golpismo-do-8-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=131266","title":{"rendered":"Golpe de 1964: manuten\u00e7\u00e3o de tutela militar permitiu golpismo do 8\/1"},"content":{"rendered":"\n<p>Tanto em 1964&nbsp;quanto ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de 2022, oficiais militares do Ex\u00e9rcito se insurgiram contra a soberania popular vinda do voto. Em ambos os casos, revelou-se o entendimento comum de militares de que eles devem definir o destino do pa\u00eds \u00e0 revelia das escolhas populares e tutelando a sociedade civil.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1636898&amp;o=node\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1636898&amp;o=node\"><\/p>\n\n\n\n<p>Essa seria uma das principais semelhan\u00e7as entre os dois epis\u00f3dios, segundo cientistas sociais consultados pela&nbsp;<strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>.&nbsp;<strong>Para os especialistas, os dois casos refor\u00e7am a&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/politica\/noticia\/2025-03\/golpismo-do-81-pede-reforma-nas-forcas-armadas-dizem-especialistas\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">necessidade de reformas nas For\u00e7as Armadas<\/a>.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Entre as principais diferen\u00e7as entre os epis\u00f3dios hist\u00f3ricos, est\u00e3o a falta de coes\u00e3o dos setores empresarias para o golpe ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de 2022 e a falta de apoio internacional, especialmente do governo dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O historiador Manuel Domingos Neto, professor aposentado da Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFCE), destacou que, em ambos os epis\u00f3dios, os militares atribu\u00edram a si o direito de definir o destino da na\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/JztwqaMRnZg43b8wWdATqd6SuFs=\/463x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/_ja_9173_0.jpg?itok=uJER6YRO\" alt=\"Brasilia (DF) 08\/01\/2023 - Golpistas invadem pr\u00e9dios p\u00fablicos na pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes. Vandalos  na rampa de acesso do Pal\u00e1cio do Planalto.\" title=\"Joedson Alves\/Agencia Brasil\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Atos golpistas de 8 de janeiro de 2023&nbsp;&#8211;&nbsp;<strong>Jo\u00e9dson Alves\/Agencia Brasil<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00f3s temos o esp\u00edrito corporativo que diz que cumpre aos militares, em particular ao Ex\u00e9rcito, conduzir o destino do pa\u00eds. E essa sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma em 1964 e 2022. Ela \u00e9 persistente. O militar \u00e9 criado nessa no\u00e7\u00e3o que ele recebe na sua forma\u00e7\u00e3o\u201d, destacou Neto, que pesquisa a hist\u00f3ria militar no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A professora de hist\u00f3ria do Brasil da Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia (UFU) Carla Teixeira destacou a rejei\u00e7\u00e3o de comandantes militares de aceitarem a lideran\u00e7a de um presidente civil escolhido pela popula\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm 1964, assim como em 2023, temos um arranjo de grupos de poder que tentam barrar a vontade popular. O atual comandante do Ex\u00e9rcito, o general Tom\u00e1s Paiva, revelou que o resultado eleitoral n\u00e3o foi o que os militares gostariam. Ainda que nem todos os oficiais tenham aderido ao golpe, \u00e9 fato que eles n\u00e3o aceitavam a figura do Lula\u201d, explicou.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Carla Teixeira, doutora em hist\u00f3ria pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a conjuntura desfavor\u00e1vel evitou que todos os oficiais aderissem ao golpe. \u201cDar o golpe \u00e9 f\u00e1cil, sustentar o governo depois \u00e9 que \u00e9 o problema. Os comandantes militares perceberam que n\u00e3o havia apoio na sociedade e no estrangeiro\u201d, disse.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Protagonismo do Ex\u00e9rcito<\/h2>\n\n\n\n<p><strong>O cientista pol\u00edtico Rodrigo Lentz, que estuda o pensamento pol\u00edtico do militar brasileiro,&nbsp;destacou o protagonismo dos oficiais militares do Ex\u00e9rcito como importante semelhan\u00e7a entre os dois epis\u00f3dios<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/hfUAKdzF_5mEIJA7pbaMKa2mqMc=\/463x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/whatsapp_image_2023-06-16_at_15.20.49_1.jpeg?itok=V3yo1io5\" alt=\"Lobby militar nos parlamentos fere democracia, alertam especialistas  - Rodrigo Letz. \u2013 Foto: Arquivo Pessoal\" title=\"Arquivo pessoal\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">&nbsp;Cientista pol\u00edtico Rodrigo Lentz estuda o pensamento pol\u00edtico do militar brasileiro &#8211;&nbsp;<strong>Rodrigo Lentz\/Arquivo pessoal<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>\u201cEm ambos os casos, os protagonistas foram oficiais militares, e n\u00e3o pra\u00e7as, e da sua maioria do Ex\u00e9rcito. A segunda principal semelhan\u00e7a \u00e9 que esses militares se insurgiram contra a soberania popular aferida pelo meio eleitoral, que \u00e9 o m\u00e9todo leg\u00edtimo para forma\u00e7\u00e3o de governo\u201d, comentou.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Outra importante semelhan\u00e7a entre os epis\u00f3dios foi o forte apoio dos setores do empresariado agr\u00e1rio.<\/strong>&nbsp;\u201cA gente teve em 2022 um amplo apoio dos setores agr\u00e1rios \u00e0 tentativa de golpe. Como ficou claro depois, nos inqu\u00e9ritos, que o pessoal do agro que pagou os acampamentos, como o pr\u00f3prio Mauro Cid [ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro] delatou\u201d, disse a professora Carla Teixeira.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Inimigo interno e neoliberalismo<\/h2>\n\n\n\n<p><strong>A doutora em hist\u00f3ria pela UFMG&nbsp;Carla Teixeira&nbsp;acrescentou ainda que, assim como em 1964, esse grupo que quis se perpetuar no poder construiu a ideia de inimigo interno a ser combatido.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cEm 64, havia, no \u00e2mbito da sociedade, a ideia de uma amea\u00e7a comunista. E hoje a gente tem a ideia do marxismo cultural, da ideologia de g\u00eanero, do globalismo, os professores, os cientistas, os artistas, enfim, todos esses grupos que foram al\u00e7ados para o lugar de inimigo pelo governo Bolsonaro\u201d, acrescentou Carla Teixeira.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/SH-SCYbk-at5OpRDtUjHJWcyfgQ=\/463x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2025\/03\/31\/golpe_1964_04.jpg?itok=Uqs-OPtE\" alt=\"Bras\u00edlia (DF) 31\/03\/2025 - Imagens do golpe de 1964.\nFrame TV Brasil\" title=\"Frame TV Brasil\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Militares ocupam as ruas ap\u00f3s golpe de 1964&nbsp;&#8211;&nbsp;<strong>Frame\/TV Brasil<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>Outra semelhan\u00e7a \u00e9 o projeto de instituir uma pol\u00edtica de corte neoliberal como pol\u00edtica de Estado. \u201cDurante o governo do Castelo Branco [1964-1967], foram institu\u00eddas v\u00e1rias medidas liberais que levaram a um aumento da desigualdade social, como o fim de direitos trabalhistas, a exemplo do direito \u00e0 estabilidade no emprego\u201d, avaliou.<\/p>\n\n\n\n<p>A historiadora ressaltou que, no governo Bolsonaro,&nbsp;as pol\u00edticas de corte neoliberal eram representadas pelo ent\u00e3o ministro da Economia, Paulo Guedes, e pelo Projeto de Na\u00e7\u00e3o: o Brasil em 2035, lan\u00e7ado pelo Instituto General Villas B\u00f4as, entidade que leva o nome de um dos&nbsp;militares de&nbsp;maior prest\u00edgio nas For\u00e7as Armadas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 um projeto que, basicamente, institui o neoliberalismo como pol\u00edtica de Estado. Haveria a cobran\u00e7a de mensalidade nas universidades p\u00fablicas, cobran\u00e7a de mensalidade no SUS [Sistema \u00danico de Sa\u00fade]&nbsp;e assim por diante. Isso revela muito essa ades\u00e3o dos militares a um projeto neoliberal\u201d, completou.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Diferen\u00e7as<\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar das enormes semelhan\u00e7as, muitas s\u00e3o as diferen\u00e7as entre o golpe de 1964 e o movimento golpista que culminou com o 8 de janeiro de 2023. O especialista Rodrigo Lentz destacou que, em 1964, est\u00e1vamos em plena Guerra Fria e existiam movimentos revolucion\u00e1rios espalhados na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cHavia a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana de 1959. Havia ainda a grande novidade do processo eleitoral e grande instabilidade. Todos os resultados eleitorais foram questionados, houve subleva\u00e7\u00f5es de militares, sempre de extrema-direita. O cen\u00e1rio era muito distinto, analfabetos n\u00e3o votavam, o Brasil ainda estava em processo de urbaniza\u00e7\u00e3o\u201d, lembrou Rodrigo Lentz.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Agora, em 2022, o contexto \u00e9 outro. \u201cN\u00f3s v\u00ednhamos de certa estabilidade pol\u00edtico-eleitoral, com sucessivas altern\u00e2ncias de poder com reconhecimento do resultado. Certa regularidade partid\u00e1ria. E tamb\u00e9m temos hoje uma sociedade democr\u00e1tica que se desenvolveu e se fortaleceu, o que tem diferen\u00e7a para o per\u00edodo pr\u00e9-64, que o Brasil ainda engatinhava na constru\u00e7\u00e3o da sua sociedade civil\u201d, acrescentou.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/sw_hCzDPZF3iswbs5kvakVGILAU=\/463x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2025\/03\/31\/golpe_1964_01.jpg?itok=1hH24mFR\" alt=\"Bras\u00edlia (DF) 31\/03\/2025 - Imagens do golpe de 1964.\nFrame TV Brasil\" title=\"Frame TV Brasil\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Imagens do golpe militar de 1964&nbsp;&#8211;&nbsp;<strong>Frame TV Brasil<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8220;Banho de sangue&#8221;<\/h2>\n\n\n\n<p>O historiador Manuel Domingos Neto avalia tamb\u00e9m que a consci\u00eancia democr\u00e1tica atual da sociedade brasileira difere do per\u00edodo pr\u00e9-1964. \u201cPor mais fragilizada que seja a consci\u00eancia democr\u00e1tica brasileira, ela existe e existe, inclusive, como fruto da resist\u00eancia \u00e0 \u00faltima ditadura\u201d, disse.<\/p>\n\n\n\n<p>O especialista ressaltou que as lembran\u00e7as da \u00faltima ditadura foram reavivadas, e isso desfavoreceu o movimento golpista recente, citando, como exemplo, o sucesso do&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/cultura\/noticia\/2025-03\/ainda-estou-aqui-vence-oscar-de-melhor-filme-estrangeiro\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">filme&nbsp;<em>Ainda Estou Aqui<\/em><\/a>, que trata da ditadura.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cH\u00e1 essa resist\u00eancia ampla da sociedade. Os brasileiros que n\u00e3o conhecem o que foi a ditadura, por outro lado, sabem o que \u00e9 a liberdade. Eles est\u00e3o nas cidades, n\u00e3o \u00e9 como no passado, que o Brasil era essencialmente rural. Isso faz diferen\u00e7a. O banho de sangue teria que ser muito grande para eles conseguirem se manter no poder\u201d, analisou Manuel Domingos Neto.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Apoio dos EUA<\/h2>\n\n\n\n<p><strong>Entre as principais diferen\u00e7as entre 1964 e a tentativa de golpe atual, a professora&nbsp;Carla Teixeira citou a falta de coes\u00e3o dos setores empresariais e a falta de apoio externo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o houve coes\u00e3o da burguesia nacional e estrangeira. Em 1964, toda a burguesia era a favor do golpe. A burguesia agr\u00e1ria, a urbana, as classes m\u00e9dias, os grupos dominantes, nacionais e estrangeiros, e tinha amplo apoio dos Estados Unidos\u201d, disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa vez, destacou a especialista,&nbsp;os setores empresariais estavam divididos. Ela&nbsp;lembra, por exemplo, o&nbsp;apoio a Lula&nbsp;de&nbsp;Simone Tebet e Geraldo Alckmin, que seriam figuras que representam setores do empresariado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTinha um grupo ali da burguesia que votou no Bolsonaro, mas que n\u00e3o estava disposto a dar o golpe. O custo pol\u00edtico seria muito grande.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Outro fator foi a posi\u00e7\u00e3o dos EUA. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o d\u00e1 um golpe sem combinar com a burguesia, sem combinar com grupos estrangeiros, e o Bolsonaro n\u00e3o fez nada disso. Ningu\u00e9m d\u00e1 golpe no Brasil sem apoio dos Estados Unidos\u201d, completou.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tanto em 1964&nbsp;quanto ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de 2022, oficiais militares do Ex\u00e9rcito se insurgiram contra a soberania popular vinda do voto. Em ambos os casos, revelou-se o entendimento comum de militares de que eles devem definir o destino do pa\u00eds \u00e0 revelia das escolhas populares e tutelando a sociedade civil. 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