{"id":128910,"date":"2024-10-07T14:24:03","date_gmt":"2024-10-07T17:24:03","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=127481"},"modified":"2024-10-07T14:24:03","modified_gmt":"2024-10-07T17:24:03","slug":"batalha-da-se-ou-revoada-dos-galinhas-verdes-completa-90-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=128910","title":{"rendered":"Batalha da S\u00e9 ou &#8220;Revoada dos Galinhas Verdes&#8221; completa 90 anos"},"content":{"rendered":"\n<p><br>A chamada \u201cBatalha da S\u00e9\u201d, ou &#8220;Revoada dos Galinhas Verdes\u201d, que ocorreu na capital paulista em 7 de outubro de 1934, completa 90 anos nesta segunda-feira (7), Nessa data, um amplo contingente de integralistas, a vers\u00e3o local do fascismo, foi expulso do centro da capital. Apesar de pouco conhecido, o epis\u00f3dio foi marcante na hist\u00f3ria do pa\u00eds, definidor dos rumos da pol\u00edtica, ent\u00e3o sob a presid\u00eancia de Get\u00falio Vargas.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1614721&amp;o=node\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1614721&amp;o=node\"><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos livros mais importantes do historiador marxista Eric Hobsbawn, intitulado&nbsp;<em>A era dos extremos<\/em>, trata dos movimentos pol\u00edticos do s\u00e9culo passado &#8211;&nbsp;\u00e9poca de experimentos pol\u00edticos extremos, por todos seus lados. entre os principais, o nazifascismo de Hitler e Mussolini, respectivamente na Alemanha e It\u00e1lia, e o socialismo de St\u00e1lin, na antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>As tens\u00f5es entre as linhas ideol\u00f3gicas t\u00e3o distintas n\u00e3o se resumiram aos limites europeus, mas se reproduziram em outros continentes. No Brasil n\u00e3o foi diferente.&nbsp;A Batalha da S\u00e9 uniu grupos de socialistas, anarcossindicalistas, comunistas e democratas em geral, de v\u00e1rias correntes contra cerca de 8&nbsp;mil pessoas&nbsp;da A\u00e7\u00e3o Integralista Brasileira (AIB), de Pl\u00ednio Salgado.<\/p>\n\n\n\n<p>A batalha&nbsp;terminou com um morto, o jovem l\u00edder comunista D\u00e9cio de Oliveira, al\u00e9m de v\u00e1rios feridos, inclusive entre as for\u00e7as policiais&nbsp;alinhadas aos integralistas, que eram chamadas de galinhas verdes&nbsp;por causa da cor do uniforme que usavam&nbsp;em suas marchas e com\u00edcios. Postos a correr, os integralistas fugiram pelas ruas de S\u00e3o Paulo, deixando um rastro de camisas espalhadas pelas ruas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao relatar o acontecimento, o&nbsp;<em>Jornal do Povo<\/em>, do humorista Bar\u00e3o de Itarar\u00e9 (ou Appar\u00edcio Torelli), publicou em sua capa uma manchete que ficaria famosa: \u201cUm integralista n\u00e3o corre: voa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para explicar e contextualizar o movimento&nbsp;da Pra\u00e7a da S\u00e9, a&nbsp;<strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>&nbsp;entrevistou o professor livre-docente da Universidade de Campinas e pesquisador da Universidade Paris-Cit\u00e9, o soci\u00f3logo Fabio Mascaro Querido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: em sua opini\u00e3o, qual a import\u00e2ncia do epis\u00f3dio para a pol\u00edtica nacional daquele per\u00edodo pr\u00e9-ditadura de Vargas?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fabio Mascaro Querido<\/strong>: a&nbsp;chamada Revoada dos Galinhas Verdes foi, sem d\u00favida, um dos acontecimentos mais emblem\u00e1ticos do antifascismo brasileiro. Em 7 de outubro de 1934, diversos grupos e correntes pol\u00edticas diferentes, como o PCB, o PSB, os anarquistas e, com not\u00e1vel destaque, os trotskistas da Liga Comunista Internacionalista, se uniram no combate a um inimigo comum. E o fizeram por meio&nbsp;da a\u00e7\u00e3o direta, colocando literalmente para correr, em plena Pra\u00e7a da S\u00e9, os militantes da AIB \u2013 os &#8220;galinhas verdes\u201d &#8211; que ali realizavam um ato.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca, a contramanifesta\u00e7\u00e3o foi importante para a pol\u00edtica nacional porque, entre outras coisas, contribuiu para o enfraquecimento da AIB. Ao mostrar a for\u00e7a antifascista dos trabalhadores organizados, o epis\u00f3dio ajudou a desmotivar a tentativa de Vargas de se servir da AIB para acelerar o processo de instaura\u00e7\u00e3o de um regime autorit\u00e1rio, o que de fato aconteceria a partir de 1937, com o Estado Novo, mas sem a participa\u00e7\u00e3o dos integralistas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: o&nbsp;integralismo era uma for\u00e7a pol\u00edtica consider\u00e1vel na \u00e9poca, seguindo os rumos do nazismo na Alemanha e do fascismo italiano. O&nbsp;que o senhor considera ser a principal diferen\u00e7a no modelo extremista de direita no Brasil e de seus equivalentes europeus (se \u00e9 que existe tal diferen\u00e7a)?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fabio Mascaro: o<\/strong>&nbsp;integralismo era uma vers\u00e3o \u201cnacionalizada\u201d do fascismo europeu. De certa forma, ele teve o m\u00e9rito&nbsp;de transformar o fascismo numa ideologia efetivamente brasileira. Os integralistas, em especial Pl\u00ednio Salgado, constru\u00edram uma narrativa mais ou menos coerente do que era (e do que deveria ser) o Brasil. Pode-se dizer que o integralismo era o fascismo na periferia do capitalismo. Ao seu modo, ele se inseria no discurso modernizante que, na \u00e9poca, era compartilhado por quase todo mundo, inclusive pela esquerda. O fascismo europeu, por sua vez, \u00e9, antes, uma express\u00e3o dos paradoxos da modernidade, do progresso que se transformou em barb\u00e1rie, n\u00e3o no sentido de uma simples regress\u00e3o, mas sim no de uma barb\u00e1rie moderna, que industrializou a pr\u00f3pria morte. Em comum, todas essas vers\u00f5es do fascismo, no Brasil ou na Europa, se apresentam como \u00faltimo recurso de um sistema para o qual a democracia liberal se tornou incapaz de garantir sem sobressaltos a sua reprodu\u00e7\u00e3o.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: \u00e9&nbsp;poss\u00edvel estabelecer algum paralelo entre a ascens\u00e3o do extremismo de direita da primeira metade do s\u00e9culo passado e do verificado hoje, nestas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 21?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fabio Mascaro<\/strong>: h\u00e1 alguns paralelos, mas tamb\u00e9m importantes diferen\u00e7as. O fascismo hist\u00f3rico, vamos dizer assim, na It\u00e1lia ou na Alemanha, tinha um projeto de subvers\u00e3o radical do&nbsp;<em>status quo<\/em>, a fim de impor&nbsp;novo poder instituidor. Da\u00ed a mobiliza\u00e7\u00e3o (e a viol\u00eancia) permanente, assim como a identifica\u00e7\u00e3o de inimigos internos: os judeus, os comunistas, os ciganos etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito disso est\u00e1 presente na extrema-direita contempor\u00e2nea, mas com alguns matizes. Em geral, a extrema-direita de hoje (ao menos aquela com pretens\u00e3o hegem\u00f4nica) joga nos limites das regras democr\u00e1ticas, for\u00e7ando ao m\u00e1ximo as suas margens, mas sem, por enquanto, considerar a possibilidade de constru\u00e7\u00e3o de um novo sistema social. Vale lembrar, em todo caso, que mesmo o nazismo, nos seus primeiros anos, apresentou uma fachada institucional&nbsp;antes de assumir a sua inclina\u00e7\u00e3o golpista e totalit\u00e1ria. Fica como um aviso \u2013 ou um alarme de inc\u00eandio, para dizer como Walter Benjamin &#8211; para a luta contra a extrema-direita atual: n\u00f3s sabemos como come\u00e7a, mas n\u00e3o como termina.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: qual seria o grau de preocupa\u00e7\u00e3o que os defensores dos regimes democr\u00e1ticos devem ter com a nova onda reacion\u00e1ria atual? Ou trata-se de algo passageiro?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fabio Mascaro<\/strong>: a&nbsp;preocupa\u00e7\u00e3o deve ser total, mas sem recair no catastrofismo. A amea\u00e7a \u00e9 real&nbsp;e j\u00e1 se faz sentir em v\u00e1rios pa\u00edses, inclusive no Brasil. Infelizmente, o problema est\u00e1 longe de ser passageiro. A extrema-direita se alimenta de uma crise social que \u00e9 real e cujas causas s\u00e3o estruturais. Mas a sa\u00edda que apresenta n\u00e3o apenas n\u00e3o resolve os problemas identificados, como os radicaliza, situa\u00e7\u00e3o em face da qual a viol\u00eancia pol\u00edtica e social se mostra necess\u00e1ria. Proclamando-se contra o \u201csistema\u201d, a extrema-direita representa, na verdade, a garantia de que o sistema (o capitalismo) vai continuar funcionando, custe o que custar.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o significa, por\u00e9m, que a ascens\u00e3o da extrema-direita seja inevit\u00e1vel. Trata-se de um fen\u00f4meno pol\u00edtico que, como tal, pode ser derrotado, o que depende da capacidade das for\u00e7as que se dizem&nbsp;democratas de apresentar uma outra sa\u00edda &#8211; estrutural \u2013 para a crise civilizat\u00f3ria que vivemos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: por que a esquerda n\u00e3o consegue mais seduzir boa parcela da popula\u00e7\u00e3o, principalmente os jovens, diferentemente das recentes d\u00e9cadas passadas?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fabio Mascaro<\/strong>: aqui est\u00e1 boa parte da explica\u00e7\u00e3o da ascens\u00e3o da extrema-direita: o decl\u00ednio da capacidade das esquerdas, social e pol\u00edtica em geral, de dialogar com setores da sociedade que outrora compunham suas bases sociais. H\u00e1 v\u00e1rios aspectos que explicam esse processo: ascens\u00e3o do neoliberalismo, mudan\u00e7as no mundo do trabalho, encurtamento do horizonte de expectativas etc. Nesse cen\u00e1rio, as esquerdas \u2013 submetidas a press\u00f5es de diversas ordens \u2013 tenderam a se acomodar numa posi\u00e7\u00e3o defensiva, muitas vezes focando em quest\u00f5es societais ou identit\u00e1rias. Quest\u00f5es fundamentais, sem d\u00favida,&nbsp;mas cujo protagonismo diante das lutas sociais e econ\u00f4micas mais amplas deixou as esquerdas \u00f3rf\u00e3s de um projeto alternativo de sociedade. \u00c9 por isso que&nbsp;hoje, paradoxalmente, \u00e9 a extrema-direita que se apresenta, para muita gente, como a verdadeira alternativa a \u201ctudo o que est\u00e1 a\u00ed\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: o&nbsp;ressurgimento do extremismo reacion\u00e1rio revela um esgotamento do atual modelo pol\u00edtico-partid\u00e1rio? Do modo de fazer pol\u00edtica?<\/p>\n\n\n\n<p>Fabio Mascaro: sem d\u00favida. No Brasil e em v\u00e1rios outros pa\u00edses do mundo, as \u00faltimas d\u00e9cadas demonstraram um alheamento do sistema pol\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles que, em tese, ele deveria representar. Na Europa e nos Estados Unidos, o fato de que, nas \u00faltimas duas ou tr\u00eas d\u00e9cadas, os principais partidos (da esquerda e da direita tradicionais) tenham levado a cabo a mesma pol\u00edtica econ\u00f4mica (neoliberal) fortaleceu a sensa\u00e7\u00e3o, em parcelas expressivas da sociedade, inclusive no \u00e2mbito das classes populares, de que os pol\u00edticos s\u00e3o todos iguais, de que a pol\u00edtica \u00e9 um engodo, e assim por diante. No Brasil a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 relativamente singular, sobretudo em fun\u00e7\u00e3o dos primeiros governos Lula&nbsp;que, mesmo sem romper com o neoliberalismo, fortaleceu a aten\u00e7\u00e3o aos mais pobres. \u00c9 isso o que explica por que, ao contr\u00e1rio da europeia, por exemplo, a extrema-direita brasileira reivindica, sem complexos, um neoliberalismo puro e duro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: como no passado, os meios de comunica\u00e7\u00e3o tiveram papel importante, sen\u00e3o fundamental, na ascens\u00e3o e crescimento do fascismo. \u00c9 poss\u00edvel responsabilizar as novas formas de comunica\u00e7\u00e3o, principalmente as redes sociais digitais, pelo ressurgimento do extremismo de direita no mundo?<\/p>\n\n\n\n<p>Fabio Mascaro: a&nbsp;principal responsabilidade dos meios de comunica\u00e7\u00e3o est\u00e1 no modo como eles \u201cnormalizam\u201d quest\u00f5es levantadas pela extrema-direita. Esse mecanismo \u00e9 amplificado nas chamadas redes sociais contempor\u00e2neas, em cuja cacofonia a extrema-direita nada de bra\u00e7ada. Mas, t\u00e3o importante quanto analisar a responsabilidade dos meios de comunica\u00e7\u00e3o&nbsp;\u00e9 entender o que faz com que as pessoas se disponham a encampar as ideias apresentadas. H\u00e1 uma postura ativa a\u00ed, que \u00e9 diferente da mera ignor\u00e2ncia. Para combater essas ideias, \u00e9 preciso, portanto, compreender a insatisfa\u00e7\u00e3o que a potencializa, a fim de apresentar uma alternativa cred\u00edvel contra o &#8220;salve-se quem puder&#8221;, com o qual a extrema-direita joga com o problema, sem resolv\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A chamada \u201cBatalha da S\u00e9\u201d, ou &#8220;Revoada dos Galinhas Verdes\u201d, que ocorreu na capital paulista em 7 de outubro de 1934, completa 90 anos nesta segunda-feira (7), Nessa data, um amplo contingente de integralistas, a vers\u00e3o local do fascismo, foi expulso do centro da capital. 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