{"id":126277,"date":"2024-08-14T15:33:18","date_gmt":"2024-08-14T18:33:18","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=125221"},"modified":"2024-08-14T15:33:18","modified_gmt":"2024-08-14T18:33:18","slug":"brasil-nao-se-enxerga-no-espelho-diz-artista-negra-rosana-paulino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=126277","title":{"rendered":"\u201cBrasil n\u00e3o se enxerga no espelho\u201d, diz artista negra Rosana Paulino"},"content":{"rendered":"\n<p>Com quase 60% da popula\u00e7\u00e3o reconhecida como negra, o Brasil \u00e9 um pa\u00eds que n\u00e3o se enxerga no espelho e est\u00e1 muito atrasado em discuss\u00f5es sobre a quest\u00e3o racial. O pensamento \u00e9 da educadora e artista visual negra Rosana Paulino, que coleciona trabalhos de destaque dentro e fora do Brasil ligados ao racismo, posi\u00e7\u00e3o da mulher negra na sociedade e marcas deixadas pela escravid\u00e3o.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1607879&amp;o=node\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1607879&amp;o=node\"><\/p>\n\n\n\n<p>Para a artista, a educa\u00e7\u00e3o visual \u00e9 absolutamente necess\u00e1ria para a emancipa\u00e7\u00e3o das pessoas. \u201cSe voc\u00ea s\u00f3 v\u00ea uma pessoa ou um determinado grupo ocupando determinados postos, s\u00f3 v\u00ea esse grupo sendo retratado de maneira negativa, voc\u00ea n\u00e3o precisa falar, voc\u00ea n\u00e3o precisa escrever. Voc\u00ea n\u00e3o precisa ler sobre isso: a imagem j\u00e1 est\u00e1 te condicionando\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><\/h6>\n\n\n\n<p>A artista e intelectual que at\u00e9 dois meses atr\u00e1s fez grande sucesso com a exposi\u00e7\u00e3o&nbsp;<em>Amefricana<\/em>, no Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba), \u00e9 uma das titulares da C\u00e1tedra Pequena \u00c1frica, lan\u00e7ada este ano pela Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro. Ela ministrar\u00e1 o curso livre Arquivo, Mem\u00f3ria, Constru\u00e7\u00e3o Visual e Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosana Paulino conversou com a&nbsp;<strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>&nbsp;sobre esse pioneirismo acad\u00eamico que direciona para o \u201cempretecimento\u201d da academia e sobre a obra dela &#8211; que tem a indigna\u00e7\u00e3o e o antirracismo como mat\u00e9rias-primas, al\u00e9m de assuntos alvo de debate contempor\u00e2neo, como a rela\u00e7\u00e3o entre comunidades tradicionais e mitiga\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Confira os principais trechos da entrevista exclusiva:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Qual \u00e9 a proposta desse curso? \u00c9 uma ressignifica\u00e7\u00e3o de imagens ligadas \u00e0 escravid\u00e3o?<br \/><strong>Rosana Paulino<\/strong>: S\u00e3o encontros. Eu pretendo analisar algumas imagens, como essas imagens v\u00e3o ajudar a criar um local social para essa popula\u00e7\u00e3o negra, e como os artistas contempor\u00e2neos brasileiros desse momento est\u00e3o quebrando esse local simb\u00f3lico social que foi formado para a popula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da imagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, n\u00e3o d\u00e1 para entrar em um assunto t\u00e3o complicado assim sem entender o que aconteceu antes. Como se forma o local simb\u00f3lico para uma determinada popula\u00e7\u00e3o. Como se d\u00e1 o processo de embranquecimento e de apagamento. Mas s\u00f3 dentro da \u00e1rea da imagem, que \u00e9 o campo em que atuo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escravid\u00e3o, porque quando a gente vai falar da popula\u00e7\u00e3o negra, a gente sempre pensa na escravid\u00e3o, mas tem todo um conjunto de cria\u00e7\u00e3o, tem toda uma a\u00e7\u00e3o dessa popula\u00e7\u00e3o negra que n\u00e3o est\u00e1 simplesmente ligada \u00e0 escravid\u00e3o, porque se n\u00e3o a gente reduz demais a situa\u00e7\u00e3o. Reduz o sujeito negro como se fosse somente dependente desse ato da escravid\u00e3o, e a popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 muito mais que isso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Voc\u00ea \u00e9 uma artista e tamb\u00e9m uma educadora. A arte \u00e9 uma ferramenta de educa\u00e7\u00e3o?<br \/><strong>Rosana Paulino<\/strong>: Sem d\u00favida nenhuma! Trabalhei como educadora por 30 anos. Gosto do of\u00edcio. Eu s\u00f3 sa\u00ed da \u00e1rea porque minha agenda n\u00e3o permite mais. A educa\u00e7\u00e3o, principalmente a educa\u00e7\u00e3o visual, \u00e9 absolutamente necess\u00e1ria para a emancipa\u00e7\u00e3o dos sujeitos. A imagem tem um poder que \u00e9 muito pouco discutido no Brasil, e \u00e9 uma coisa que me preocupa muito. Essas discuss\u00f5es que deveriam ter sido postas em cima da mesa para a gente entender como \u00e9 que voc\u00ea condiciona uma popula\u00e7\u00e3o. Como \u00e9 que voc\u00ea define locais sociais. A imagem \u00e9 extremamente poderosa nesse sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes, a gente n\u00e3o precisa falar nada. Mas se voc\u00ea s\u00f3 v\u00ea uma pessoa ou um determinado grupo ocupando determinados postos, s\u00f3 v\u00ea esse grupo sendo retratado de maneira negativa, voc\u00ea n\u00e3o precisa falar, voc\u00ea n\u00e3o precisa escrever ler sobre isso, a imagem j\u00e1 est\u00e1 te condicionando.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: O que voc\u00ea espera como resultado dessas conversas, plantar sementes para novas trabalhos de teor antirracista?<br \/><strong>Rosana Paulino<\/strong>: Eu quero \u00e9 isso: colocar o assunto em cima da mesa para que outros venham discutir isso. \u00c9 algo que tem que ser profundamente discutido em um pa\u00eds onde quase 60% da popula\u00e7\u00e3o j\u00e1&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/economia\/noticia\/2023-12\/censo-2022-populacao-parda-supera-branca-pela-1a-vez\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">se coloca como negra<\/a>. \u00c9 um absurdo que n\u00f3s n\u00e3o tenhamos discutido isso ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>A gente tem que pensar sobre isso: que pa\u00eds n\u00f3s queremos? O pa\u00eds que n\u00f3s queremos passa pela constru\u00e7\u00e3o em uma imagem tamb\u00e9m. Tudo est\u00e1 para ser feito no Brasil ainda. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, em 2024, tudo ainda est\u00e1 para ser discutido nesse sentido no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/D7zl2w0eKrdApf1bY--5vUCr5Oc=\/365x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/_mg_3485_0.jpg?itok=QBT27Z-r\" alt=\"Nova bandeira do Museu de Arte do Rio, na Pra\u00e7a Mau\u00e1, leva imagem de mulher negra, criada pela artista Rosana Paulino.\" title=\"Fernando Fraz\u00e3o\/Ag\u00eancia Brasil\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">A bandeira do Museu de Arte do Rio, na Pra\u00e7a Mau\u00e1, \u00e9 cria\u00e7\u00e3o da artista Rosana Paulino &#8211;&nbsp;<strong>Fernando Fraz\u00e3o\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Essa c\u00e1tedra da FGV \u00e9 pioneira. Voc\u00ea est\u00e1 sendo pioneira em um processo pioneiro (Rosana Paulino \u00e9 a primeira das titulares a desenvolver atividades na c\u00e1tedra. As outras duas titulares s\u00e3o a professora e cantora l\u00edrica Inaicyra Falc\u00e3o e a poeta e ensa\u00edsta Leda Maria Martins). Olhando para daqui a dez anos, voc\u00ea espera que esse tenha sido um caminho para empretecer a academia?<br \/><strong>Rosana Paulino<\/strong>: Precisa. Novamente eu vou trazer essa quest\u00e3o do atraso brasileiro em rela\u00e7\u00e3o a essas discuss\u00f5es. J\u00e1 fui muito mais chamada fora do Brasil do que dentro. Estou cansada de ser chamada fora do Brasil para abrir semestre, fazer aula especial, aula nobre de ano letivo em universidades. C\u00e1tedras, eu ainda n\u00e3o peguei fora do Brasil, mas todo ano recebo pelo menos um convite para abrir um semestre.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui no Brasil, a gente n\u00e3o faz. Espero que seja o primeiro, que realmente a c\u00e1tedra chame aten\u00e7\u00e3o para essas discuss\u00f5es, para que ajude a empretecer e, principalmente, para que ajude na produ\u00e7\u00e3o de novos trabalhos que venham discutir esse assunto. Isso \u00e9 para ontem!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Voc\u00ea teve exposi\u00e7\u00f5es no exterior, como em Buenos Aires e nos Estados Unidos. Qual a percep\u00e7\u00e3o que voc\u00ea tem do p\u00fablico que visita as suas obras?<br \/><strong>Rosana Paulino<\/strong>: Eu n\u00e3o esperava tanta receptividade fora do Brasil porque achava que era um tema muito regional. O que me surpreendeu foi como a exposi\u00e7\u00e3o foi acolhida fora do pa\u00eds. O Malba esteve cheio praticamente todos os dias. Foi uma coisa meio absurda que aconteceu no Malba. A pr\u00f3pria equipe do museu comentava comigo como estava cheio.<\/p>\n\n\n\n<p>Aconteceu uma coisa muito linda no Malba. [Contrariando] aquela hist\u00f3ria de que n\u00e3o existe negros na Argentina, as pessoas negras come\u00e7aram a ir, principalmente as mulheres negras, e come\u00e7aram a propor rodas de conversa no meio da exposi\u00e7\u00e3o. Eu fiquei completamente surpresa. Isso mostra o alcance que pode ter uma exposi\u00e7\u00e3o. Isso que eu procuro sempre com o trabalho, levantar discuss\u00f5es, trazer conversas, colocar o assunto na mesa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Sua obra fala sobre o sofrimento que envolve a di\u00e1spora africana, migra\u00e7\u00e3o em massa for\u00e7ada e dolorida, racismo que tenta silenciar a presen\u00e7a negra no Brasil. Voc\u00ea vislumbra que \u00e9 poss\u00edvel que a popula\u00e7\u00e3o afrodescendente possa cicatrizar essa mem\u00f3ria?<br \/><strong>Rosana Paulino<\/strong>: Essa cicatriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o depende tanto, talvez, da popula\u00e7\u00e3o negra. Depende da popula\u00e7\u00e3o que se considera branca porque isso n\u00e3o se faz de um \u00fanico lado. Querendo ou n\u00e3o, esse \u00e9 um pa\u00eds negro. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds onde o que&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2023-12\/maior-presenca-de-negros-no-pais-reflete-reconhecimento-racial\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">rege a quest\u00e3o da cor \u00e9 a autodeclara\u00e7\u00e3o<\/a>, os crit\u00e9rios do IBGE. Eu desconfio que isso vai bater em 65%. \u00c9 uma popula\u00e7\u00e3o negra, uma cultura negra, \u00e9 um pa\u00eds que vai ter a oferecer para o mundo justamente as diferentes culturas que est\u00e3o aqui. Ent\u00e3o o Brasil se assume como \u00e9 ou a gente vai continuar jogando no lixo, todos os dias, aquilo que a gente tem para oferecer para o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil talvez seja um dos principais pa\u00edses a ter a chave para essa quest\u00e3o clim\u00e1tica. Popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, ribeirinhas, quilombolas, s\u00e3o eles que t\u00eam o conhecimento para tirar o homem desse abismo, desse buraco. A gente n\u00e3o se reconhecendo como tal, a gente n\u00e3o consegue solu\u00e7\u00e3o nem para os nossos problemas nem para uma coisa muito maior. Ent\u00e3o, n\u00e3o diria cicatriza\u00e7\u00e3o, acho que a gente tem que colocar o assunto sobre a mesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa popula\u00e7\u00e3o precisa e merece compensa\u00e7\u00f5es, se n\u00e3o a gente vai pensar em uma cicatriza\u00e7\u00e3o de qual maneira? Sem limpar a ferida para depois explodir l\u00e1 na frente? Ent\u00e3o eu n\u00e3o diria cicatriza\u00e7\u00e3o dessa ferida da escravid\u00e3o, a gente tem que botar em cima da mesa, abrir e ver quais s\u00e3o as solu\u00e7\u00f5es para isso. Como \u00e9 que a gente vai limpar essa ferida, acomodar as bordas desse tecido que ainda est\u00e3o separadas, como \u00e9 que a gente vai fazer essa sutura?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: O Brasil est\u00e1 muito atrasado nessa assepsia?<br \/><strong>Rosana Paulino<\/strong>: Muito. O Brasil est\u00e1 extremamente atrasado nisso e \u00e9 muito resistente. O que me choca mais \u00e9 a resist\u00eancia do pa\u00eds em reconhecer isso. E o trabalho aqui foi t\u00e3o bem feito que boa parte da pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o negra n\u00e3o reconhece. N\u00f3s temos uma movimenta\u00e7\u00e3o absolutamente gigantesca a ser feita nesse sentido.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/JrAm0XmM27lJngu_ZLLhYa4sfsg=\/365x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/08\/14\/toms4195.jpg?itok=ebgjNoym\" alt=\"Rio de Janeiro (RJ), 05\/08\/2024 \u2013 A artista Rosana Paulino ministrar\u00e1 curso na C\u00e1tedra Pequena \u00c1frica, na Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV), no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil\" title=\"Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Rosana ministrar\u00e1 o curso na C\u00e1tedra Pequena \u00c1frica, na Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas &#8211;&nbsp;<strong>Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Fora o seu trabalho especificamente, de quais outras formas o Brasil pode avan\u00e7ar nisso?<br \/><strong>Rosana Paulino<\/strong>: Valoriza\u00e7\u00e3o da cultura no geral, isso \u00e9 absolutamente essencial.&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/direitos-humanos\/noticia\/2024-01\/rio-teve-quase-3-mil-crimes-ligados-intolerancia-religiosa-em-2023\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Combate ao racismo religioso<\/a>. Isso \u00e9 tamb\u00e9m uma coisa absurda. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que corre o risco de perder a sua pr\u00f3pria identidade por conta do racismo religioso. Porque n\u00e3o se pode esquecer nunca que a cultura \u00e9 diretamente ligada \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es religiosas, \u00e0 m\u00fasica negra, a m\u00fasica brasileira, a de qualidade, pela qual o Brasil \u00e9 conhecido mundialmente. A m\u00fasica brasileira \u00e9 diretamente ligada \u00e0 m\u00fasica de terreiro. \u00c9 do terreiro que vem o samba. \u00c9 do samba e de outras manifesta\u00e7\u00f5es musicais negras que v\u00eam do terreiro que a gente vai ter a base musical para a cultura brasileira. Durante muito tempo a cultura musical foi o destaque do Brasil no mundo, e o Brasil joga isso fora. Quando voc\u00ea n\u00e3o respeita as religi\u00f5es de matriz africana, a gente vai muito al\u00e9m de uma quest\u00e3o simplesmente religiosa, a gente chega no cerne do que \u00e9 ser brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>As coisas est\u00e3o ligadas. Aqui no Brasil, a gente tem um h\u00e1bito de ver cada coisa em uma caixinha. Mas est\u00e1 tudo entrela\u00e7ado, eu n\u00e3o posso pensar a cultura brasileira sem pensar em manifesta\u00e7\u00e3o religiosa. \u00c9 imposs\u00edvel. O que o Brasil faz, muitas vezes, abafa certas condi\u00e7\u00f5es culturais religiosas, traz de fora um material de quinta [categoria] e coloca isso como se fosse uma matriz nacional, o que n\u00e3o \u00e9. E a\u00ed joga no lixo aquilo que poderia ter para oferecer para o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque sen\u00e3o a gente vai continuar nisso, uma c\u00f3pia extremamente mal feita do Ocidente, e sem levantar a cabe\u00e7a, o que \u00e9 pior. Uma c\u00f3pia que aceita tudo quanto \u00e9 tranqueira que vem de fora, n\u00e3o produz, e com uma capacidade absurda de produ\u00e7\u00e3o. E principalmente a academia. A academia no Brasil faz isso o tempo todo. Tem que empretecer a academia e descolonizar essa academia. A academia no Brasil, tem hora que d\u00e1 vergonha: aceita tudo de fora e n\u00e3o prop\u00f5e nada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: No dia do lan\u00e7amento da c\u00e1tedra, a escritora Concei\u00e7\u00e3o Evaristo&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2024-03\/nao-precisamos-ter-modestia-diz-conceicao-evaristo-sobre-saber-negro\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">disse que os pensadores<\/a>&nbsp;negros n\u00e3o t\u00eam que ter mod\u00e9stia.<br \/><strong>Rosana Paulino<\/strong>: Eu concordo em g\u00eanero, n\u00famero e grau com a Concei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o temos que ter mod\u00e9stia. Temos \u00e9 que nos colocar no mundo. O que acontece, o que valida muito a produ\u00e7\u00e3o cultural no Brasil \u00e9 a academia. Uma academia totalmente tomada por quest\u00f5es euroc\u00eantricas e que n\u00e3o tem pulso para se rebelar. Vai aceitando de maneira passiva. \u00c9 de uma passividade que me irrita profundamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Junta-se a isso o hist\u00f3rico da popula\u00e7\u00e3o negra, o modo como as culturas de matriz populares s\u00e3o relegadas ao segundo plano&#8230; isso \u00e9 um caldo de sujei\u00e7\u00e3o a outras culturas \u2013 voc\u00ea n\u00e3o se colocar diante do mundo. Somos um pa\u00eds com um potencial absurdo. S\u00f3 que se a gente n\u00e3o se assume como pa\u00eds, a gente n\u00e3o sai desse buraco. \u00c9 essencial, sim, que a gente n\u00e3o tenha mod\u00e9stia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Em&nbsp;<em>Samba da Ben\u00e7\u00e3o<\/em>, Vin\u00edcius de Moraes diz que &#8220;pra fazer um samba com beleza \u00e9 preciso um bocado de tristeza&#8221;. No seu trabalho, \u00e9 preciso ter a mem\u00f3ria do sofrimento \u00e9tnico para criar obras que sirvam de conte\u00fado antirracista?<br \/><strong>Rosana Paulino<\/strong>: N\u00e3o. Eu n\u00e3o quero tristeza, quero repara\u00e7\u00e3o. \u00c9 diferente. O povo preto \u00e9 t\u00e3o forte que consegue cantar e dan\u00e7ar em cima disso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: E se trocar tristeza por indigna\u00e7\u00e3o?<br \/><strong>Rosana Paulino<\/strong>: A\u00ed rola. Mas se a gente for por essa tristeza, por esse banzo, a gente n\u00e3o tem escola de samba. Escola de samba para as pessoas negras \u00e9 um ve\u00edculo de educa\u00e7\u00e3o extremamente poderoso. Eu come\u00e7o a ter o meu letramento racial quando eu era adolescente, quando a Mocidade Alegre, l\u00e1 de S\u00e3o Paulo, fez tr\u00eas enredos sobre a quest\u00e3o negra. O que \u00e9 o cortejo de escola de samba? Ali n\u00e3o cabe essa tristeza para fazer cultura n\u00e3o, ali a gente p\u00f5e indigna\u00e7\u00e3o, a gente abre o assunto e ainda passa cantando.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Voc\u00ea j\u00e1 disse que o Brasil n\u00e3o se enxerga no espelho. N\u00e3o se enxerga ou n\u00e3o quer se enxergar?<br \/><strong>Rosana Paulino<\/strong>: Os dois. A elite n\u00e3o quer enxergar. A elite brasileira nunca se viu como brasileira. A elite brasileira se v\u00ea como coitados exilados na Am\u00e9rica do Sul. Ela n\u00e3o quer se ver como ela \u00e9. O povo, no geral, muitas vezes tem press\u00e3o religiosa, as religi\u00f5es negras sempre foram demonizadas, isso est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 cultura, e isso vai criando um caldo de desperd\u00edcio que vai afetar todas as \u00e1reas: da cultura ao meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quem \u00e9 Rosana Paulino<\/h2>\n\n\n\n<p>A artista vive em S\u00e3o Paulo, cidade onde nasceu, em 1967. \u00c9 doutora em Artes Visuais pela Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da Universidade de S\u00e3o Paulo (ECA\/USP), especialista em gravura pelo London Print Studio, de Londres, e bacharel em gravura pela ECA\/USP.<\/p>\n\n\n\n<p>Como artista, se destaca pela produ\u00e7\u00e3o ligada a quest\u00f5es sociais, \u00e9tnicas e de g\u00eanero. Possui obras em importantes museus, como o Museu de Arte Moderna de S\u00e3o Paulo (MAM-SP), a Pinacoteca do Estado de S\u00e3o Paulo; o Museu de Arte de S\u00e3o Paulo Assis Chateaubriand (Masp); Museu Afro-Brasil, em S\u00e3o Paulo; Malba e University of New Mexico Art Museum, no Novo M\u00e9xico (EUA). J\u00e1 exp\u00f4s em cidades como Lisboa, Berlim, Veneza (It\u00e1lia), Chicago (EUA) e Bruxelas, entre outras.<\/p>\n\n\n\n<p>A C\u00e1tedra Pequena \u00c1frica surgiu de uma parceria entre a prefeitura do Rio de Janeiro e a FGV, com a proposta de ser um campo acad\u00eamico para estudo e divulga\u00e7\u00e3o de pensadores negros. Possui um conselho consultivo formado pelos intelectuais negros: Ayrson Her\u00e1clito (artista e curador), Benedito Gon\u00e7alves (ministro do Superior Tribunal de Justi\u00e7a), Concei\u00e7\u00e3o Evaristo (linguista e escritora), Dione de Oliveira (jornalista e diretora da Faculdade de Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade de Bras\u00edlia (UnB); Jurema Werneck (m\u00e9dica e diretora da&nbsp; Anistia Internacional), Muniz Sodr\u00e9 (soci\u00f3logo e escritor), Sonia Guimar\u00e3es (cientista) e Thiago de Souza Amparo (advogado e professor FGV-SP).<\/p>\n\n\n\n<p>De agosto a outubro, a c\u00e1tedra realizar\u00e1 os ciclos individuais com as titulares, composto pelos cursos livres e roda de di\u00e1logos na Biblioteca M\u00e1rio Henrique Simonsen. Em novembro, no dia 5, um semin\u00e1rio reunir\u00e1 as tr\u00eas titulares, quando tamb\u00e9m ser\u00e3o convidados os participantes do comit\u00ea consultivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com quase 60% da popula\u00e7\u00e3o reconhecida como negra, o Brasil \u00e9 um pa\u00eds que n\u00e3o se enxerga no espelho e est\u00e1 muito atrasado em discuss\u00f5es sobre a quest\u00e3o racial. 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