{"id":123744,"date":"2024-06-24T11:40:37","date_gmt":"2024-06-24T14:40:37","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=123018"},"modified":"2024-06-24T11:40:37","modified_gmt":"2024-06-24T14:40:37","slug":"garantir-conteudos-seguros-e-obrigacao-de-plataformas-diz-professor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=123744","title":{"rendered":"Garantir conte\u00fados seguros \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o de plataformas, diz professor"},"content":{"rendered":"\n<p><br>O Canad\u00e1 \u00e9 um dos pa\u00edses que lideram a regulamenta\u00e7\u00e3o do funcionamento das redes sociais e servi\u00e7os\u00a0<em>on-line<\/em>. A lei canadense do\u00a0<em>streaming<\/em>, por exemplo, obriga plataformas a financiar a m\u00eddia local e apresentar conte\u00fado nacional. Outra lei, de not\u00edcias\u00a0<em>on-line<\/em>, determina o pagamento dos buscadores para mostrar not\u00edcias produzidas pela m\u00eddia local. Depois dessa legisla\u00e7\u00e3o, o Parlamento discute proposta da lei que torna m\u00eddia e plataformas respons\u00e1veis por reduzir a exposi\u00e7\u00e3o a conte\u00fado nocivo, o que inclui\u00a0<em>bullying<\/em>\u00a0e sexualiza\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as, al\u00e9m de incita\u00e7\u00e3o ao extremismo, viol\u00eancia ou \u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia canadense foi compartilhada com brasileiros por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.taylorowen.com\/about\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Taylor Owen<\/a>, professor associado da Escola Max Bell de Pol\u00edticas P\u00fablicas da Universidade McGill, em Montreal, no Canad\u00e1, titular da C\u00e1tedra Beaverbrook em M\u00eddia, \u00c9tica e Comunica\u00e7\u00f5es; e diretor fundador do Centro para M\u00eddia, Tecnologia e Democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Na primeira quinzena de junho, Owen esteve em Bras\u00edlia para uma reuni\u00e3o na Secretaria de Comunica\u00e7\u00e3o Social da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e para uma confer\u00eancia na Faculdade de Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade de Bras\u00edlia sobre as plataformas digitais e sustentabilidade do jornalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis os principais trechos da entrevista que Owen concedeu \u00e0&nbsp;<strong>Ag\u00eancia Brasil&nbsp;<\/strong>ap\u00f3s a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.taylorowen.com\/about\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">palestra na UnB<\/a>:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Por que \u00e9 preciso regulamentar o funcionamento das redes sociais? No Brasil, h\u00e1 quem diga que a regulamenta\u00e7\u00e3o fere a liberdade de express\u00e3o. A iniciativa atinge esse direito?<br><strong>Taylor Owen<\/strong>: Depende de como voc\u00ea est\u00e1 regulando as plataformas. As plataformas medeiam a democracia em nossa sociedade. Elas decidem quem pode falar, como a mensagem \u00e9 distribu\u00edda, a quem chegam essas mensagens. O algoritmo decide se sua palavra \u00e9 escutada, quando h\u00e1 resposta e como essa resposta \u00e9 disseminada. O nosso di\u00e1logo est\u00e1 sendo formado pelo desenho dessas plataformas.<br>Creio que a regulamenta\u00e7\u00e3o das plataformas n\u00e3o deve se preocupar estritamente com os atos de di\u00e1logo, mas com o desenho da comunica\u00e7\u00e3o, com os mecanismos das plataformas que determinam como o conte\u00fado se espalha, qual conte\u00fado \u00e9 amplificado e quais tipos de comportamentos s\u00e3o incentivados. Isso \u00e9 o que a regula\u00e7\u00e3o canadense tenta fazer. N\u00e3o determina o que pode e n\u00e3o pode ser dito, mas, em vez disso, estabelece obriga\u00e7\u00f5es para reduzir o risco de maus conte\u00fados propiciados nas plataformas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Entre os problemas apontados nas redes sociais no Brasil est\u00e3o uso de dados pessoais sem autoriza\u00e7\u00e3o, casos de estelionato e golpes amorosos, difama\u00e7\u00e3o de pessoas p\u00fablicas, desinforma\u00e7\u00e3o, manifesta\u00e7\u00f5es de \u00f3dio, circula\u00e7\u00e3o de cenas ins\u00f3litas \u2013 como de desrespeito a minorias, diversos tipos de viol\u00eancia, abuso sexual e at\u00e9 pornografia infantil. Que tipo de regulamenta\u00e7\u00e3o pode lidar com esses problemas? Uma regulamenta\u00e7\u00e3o d\u00e1 conta disso tudo?<br><strong>Owen<\/strong>: Creio que algumas dessas coisas n\u00e3o devem ser inclu\u00eddas em regula\u00e7\u00f5es. Desinforma\u00e7\u00e3o, por exemplo, requer discernimento do que \u00e9 verdadeiro e falso, e eu n\u00e3o acredito que ag\u00eancias governamentais devam definir isso. Para o abuso de imagem \u00edntima, para o discurso de \u00f3dio, para o incitamento \u00e0 viol\u00eancia, para a pornografia infantil, para os piores conte\u00fados que possamos identificar, podemos ter uma regula\u00e7\u00e3o que force as plataformas a lidar com cada um desses problemas e a desenvolver estrat\u00e9gias espec\u00edficas para mitig\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: N\u00f3s, brasileiros, vivemos um momento de muita polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. N\u00e3o temos nenhuma regula\u00e7\u00e3o das m\u00eddias tradicionais. Em pleno s\u00e9culo 21, ainda temos pessoas totalmente iletradas, sem citar os analfabetos funcionais e os analfabetos digitais. Nesse contexto adverso, como fazer uma lei para a regulamenta\u00e7\u00e3o digital?<br><strong>Owen<\/strong>: O fato de que estamos cada vez mais polarizados \u00e9, em parte, por causa do desenho do nosso ecossistema digital. Esta \u00e9 uma raz\u00e3o que refor\u00e7a a necessidade de fazer a regulamenta\u00e7\u00e3o. A polariza\u00e7\u00e3o, que resulta em desgastar ativamente uma pessoa por n\u00e3o concordar com ela, \u00e9 um problema muito perigoso em uma democracia. Isso est\u00e1 aumentando rapidamente por causa da forma como consumimos informa\u00e7\u00e3o, o que torna a regula\u00e7\u00e3o mais cr\u00edtica.<br>Devemos regular, n\u00e3o focando o conte\u00fado \u2013 seja de origem jornal\u00edstica, seja aquele que pessoas individualmente preparam e postam \u2013, mas na distribui\u00e7\u00e3o e no risco da exposi\u00e7\u00e3o a esse conte\u00fado nas plataformas que o disseminam. A diversidade da popula\u00e7\u00e3o e da capacidade de compreender as informa\u00e7\u00f5es na internet faz com que as plataformas tenham que assumir a obriga\u00e7\u00e3o de garantir que os conte\u00fados s\u00e3o seguros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Como o Canad\u00e1 conseguiu mobilizar a sociedade para ir em frente com esse tipo de regula\u00e7\u00e3o?<br><strong>Owen<\/strong>: Os cidad\u00e3os que usam as tecnologias digitais est\u00e3o cada vez mais conscientes dos danos e atributos negativos dessa pr\u00e1tica. Vimos danos aos nossos filhos, vimos formas de abuso ocorrendo no ambiente&nbsp;<em>on-line<\/em>, vimos como isso levou as pessoas a ficar umas contra outras, como isso nos tornou mais furiosos. Todo mundo sente essas coisas. Isso levou a um desejo, um desejo expresso, crescido com o tempo, de que o governo, no caso canadense, tomasse alguma provid\u00eancia. Os cidad\u00e3os sentiam como responsabilidade do governo maximizar os benef\u00edcios dessas tecnologias e fazer algo com rela\u00e7\u00e3o aos danos. Havia um grande desespero da popula\u00e7\u00e3o para que o governo fizesse algo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Al\u00e9m do Canad\u00e1, a Uni\u00e3o Europeia, o Reino Unido e a Austr\u00e1lia lideram o processo de regulamenta\u00e7\u00e3o das redes sociais. Existem outros exemplos no mundo, outros pa\u00edses fazendo isso? Eventual regulamenta\u00e7\u00e3o no Brasil impulsaria outros pa\u00edses do sul global a fazer o mesmo?<br><strong>Owen<\/strong>: H\u00e1 diferentes n\u00edveis de desenvolvimento nesse caminho. Em termos de legisla\u00e7\u00e3o completa de seguran\u00e7a<em>&nbsp;on-line<\/em>, a Uni\u00e3o Europeia, o Canad\u00e1 e a Austr\u00e1lia s\u00e3o os principais. Outros pa\u00edses est\u00e3o atualizando suas leis de privacidade, para a intelig\u00eancia artificial, para apoio ao jornalismo e contra os discursos de \u00f3dio. Parece-me que pa\u00edses como a Indon\u00e9sia, a Mal\u00e1sia, a \u00c1frica do Sul e o Brasil t\u00eam um enorme potencial se alinharem suas pol\u00edticas para trazer uma internet mais segura a mais de 1 bilh\u00e3o de pessoas \u2013 o que \u00e9 muito mais significativo do que o que o Canad\u00e1 pode fazer e que afeta 40 milh\u00f5es de pessoas. Grandes democracias do sul global est\u00e3o desenvolvendo regulamentos inteligentes para a internet em colabora\u00e7\u00e3o ou em alinhamento com outros pa\u00edses. Isso pode realmente mudar o funcionamento das plataformas e a vida de bilh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Gigantes do jornalismo internacional, como&nbsp;<em>Associated Press<\/em>&nbsp;(Estados Unidos),&nbsp;<em>Grupo Prisa<\/em>&nbsp;(Espanha),&nbsp;<em>Financial Times<\/em>&nbsp;(Inglaterra) e&nbsp;<em>Le Monde<\/em>&nbsp;(Fran\u00e7a), fizeram acordo com a empresa norte-americana Open IA, para que o ChatGPT possa ser calibrado com not\u00edcias aut\u00eanticas e atuais. Em sua apresenta\u00e7\u00e3o na Universidade de Bras\u00edlia, o senhor pareceu um pouco preocupado com isso. Por que o pessimismo? O que o senhor v\u00ea no futuro do jornalismo e da intelig\u00eancia artificial?<br><strong>Owen<\/strong>: Eu acredito que haver\u00e1 benef\u00edcios. A intelig\u00eancia artificial fornecer\u00e1 a jornalistas novas ferramentas para ajud\u00e1-los a fazer o seu trabalho, como as investiga\u00e7\u00f5es e a an\u00e1lise de dados em reportagens, e vai ajudar a alcan\u00e7ar e se comunicar com suas audi\u00eancias. N\u00e3o sou pessimista sobre isso.<br>Eu sou pessimista sobre os acontecimentos ou arranjos que as empresas que voc\u00ea mencionou est\u00e3o fechando com as empresas de intelig\u00eancia artificial. Pode ser uma brecha para c\u00f3pia dos acervos, criados em d\u00e9cadas, nas bases de dados dessas empresas. A segunda raz\u00e3o para o meu pessimismo \u00e9 que o produto que certas empresas de intelig\u00eancia artificial generativas est\u00e3o construindo possa ser um risco para o jornalismo. Essas companhias est\u00e3o dizendo que voc\u00ea n\u00e3o precisa de jornalismo, que v\u00e3o gerar jornalismo baseado no sumo total de conhecimento que podem adquirir. E isso, para mim, \u00e9 um modelo insustent\u00e1vel. Desvaloriza o papel do jornalismo e diz que pode gerar algo melhor em cima disso. Acho que isso \u00e9 uma amea\u00e7a existencial.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Canad\u00e1 \u00e9 um dos pa\u00edses que lideram a regulamenta\u00e7\u00e3o do funcionamento das redes sociais e servi\u00e7os\u00a0on-line. A lei canadense do\u00a0streaming, por exemplo, obriga plataformas a financiar a m\u00eddia local e apresentar conte\u00fado nacional. Outra lei, de not\u00edcias\u00a0on-line, determina o pagamento dos buscadores para mostrar not\u00edcias produzidas pela m\u00eddia local. 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