{"id":122354,"date":"2024-05-15T11:58:55","date_gmt":"2024-05-15T14:58:55","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=121402"},"modified":"2024-05-15T11:58:55","modified_gmt":"2024-05-15T14:58:55","slug":"especialistas-analisam-causas-de-inundacoes-no-rio-grande-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=122354","title":{"rendered":"Especialistas analisam causas de inunda\u00e7\u00f5es no Rio Grande do Sul"},"content":{"rendered":"\n<p>Em cen\u00e1rios de crise, \u00e9 comum a busca por causas e responsabilidades. A trag\u00e9dia das chuvas no Rio Grande do Sul, que provocaram a morte de quase 150 pessoas at\u00e9 agora, t\u00eam levantado diferentes reflex\u00f5es. Trata-se de um evento natural excepcional, imposs\u00edvel de prever e evitar? Ou h\u00e1 um grau consider\u00e1vel de responsabilidade humana\u00a0pela forma de ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, desenvolvimento urbano e uso do solo?<\/p>\n\n\n\n<p>A&nbsp;<strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>&nbsp;conversou com especialistas em recursos h\u00eddricos, que pesquisam \u00e1reas como geologia, agronomia, engenharia civil e ambiental. H\u00e1 consenso de que se trata de um evento extremo, sem precedentes, potencializado pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no planeta. Mas quando o assunto \u00e9 o papel desempenhado pelas atividades econ\u00f4micas e a ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, surgem as discord\u00e2ncias.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ocupa\u00e7\u00e3o e desenvolvimento urbano<\/h2>\n\n\n\n<p>O ge\u00f3logo Rualdo Menegat, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), \u00e9 cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas de planejamento urbano e econ\u00f4mico no estado. O caso de Porto Alegre, para ele, \u00e9 o mais emblem\u00e1tico de que h\u00e1 uma desorganiza\u00e7\u00e3o generalizada do territ\u00f3rio, causado por um conjunto de atividades econ\u00f4micas. Por isso, defende que n\u00e3o se pode falar apenas em grande precipita\u00e7\u00e3o como causadora da trag\u00e9dia, mas tamb\u00e9m de problemas graves de gest\u00e3o que a potencializaram.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs planos diretores da cidade foram desestruturados para facilitar a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. No caso de Porto Alegre, por exemplo, toda a \u00e1rea central que hoje est\u00e1 inundada no porto, foi oferecida para ser privatizada e ocupada por espig\u00f5es. Houve um sucateamento do nosso sistema de prote\u00e7\u00e3o, como se nunca mais fosse haver inunda\u00e7\u00f5es\u201d, diz Rualdo.<\/p>\n\n\n\n<p>O desmatamento de vegeta\u00e7\u00e3o nativa&nbsp;para fins imobili\u00e1rios&nbsp;tamb\u00e9m \u00e9 considerado fator que dificulta o escoamento de \u00e1gua da chuva.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cH\u00e1 uma ocupa\u00e7\u00e3o intensiva do solo. Em Porto Alegre, em especial na margem do Gua\u00edba, na zona sul, ainda temos um ecossistema mais perto do que foi no passado, com estrutura de zonas de banhado, matas e morros. Mas essas \u00e1reas est\u00e3o sob press\u00e3o da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. E por causa das pol\u00edticas de uso intensivo do solo urbano, essas \u00e1reas est\u00e3o sendo expostas, em detrimento da conserva\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos estoques ambientais, que ajudam a regular as vaz\u00f5es da \u00e1gua\u201d, analisa Rualdo.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor de recursos h\u00eddricos da Coppe\/UFRJ, Paulo Canedo, pondera que ainda \u00e9 preciso analisar a situa\u00e7\u00e3o com mais calma. Mas refor\u00e7a que o desenvolvimento econ\u00f4mico e social, quando n\u00e3o acompanhado de medidas estruturais e preventivas, facilita inunda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00f3s temos a convic\u00e7\u00e3o de que a chuva foi realmente extraordin\u00e1ria. Mas \u00e9 claro que o progresso da regi\u00e3o trouxe dificuldades de escoamento. Isso \u00e9 a contrapartida do progresso. Criam-se as cidades, as atividades econ\u00f4micas, novas moradias. Mas tem o \u00f4nus de impermeabilizar o solo e gerar mais vaz\u00e3o para a chuva\u201d, avalia Paulo Canedo. \u201cMuitas atividades econ\u00f4micas podem ter sido desenvolvidas de forma n\u00e3o sustent\u00e1vel. N\u00e3o criaram condi\u00e7\u00f5es para lidar com esse aumento de impermeabiliza\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 algo que devemos ter em mente quando formos reconstruir o Rio Grande do Sul\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Agricultura<\/h2>\n\n\n\n<p>Outro ponto em discuss\u00e3o \u00e9 se o investimento em determinadas atividades agr\u00edcolas, com consequentes altera\u00e7\u00f5es da vegeta\u00e7\u00e3o nativa, ajudaram a fragilizar os solos e o processo de escoamento da \u00e1gua. Para o ge\u00f3logo Rualdo Menegat, esse foi um dos elementos que aumentou o impacto das chuvas no estado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cGrande parte do planalto meridional tem sido intensamente ocupada pelas planta\u00e7\u00f5es de soja no limite dos arroios, destruindo a mata auxiliar e os bosques. E tamb\u00e9m os banhados, que acumulam \u00e1gua e ajudam que ela n\u00e3o ganhe velocidade. O escoamento de \u00e1gua passa a ser muito mais violento e em maior quantidade, porque n\u00e3o h\u00e1 tempo para infiltra\u00e7\u00e3o\u201d, diz Rualdo.<\/p>\n\n\n\n<p>O agr\u00f4nomo Fernando Setembrino Meirelles discorda do peso dado \u00e0 agricultura nas inunda\u00e7\u00f5es recentes. Ele \u00e9 professor de&nbsp;recursos h\u00eddricos na UFRGS e foi diretor do Departamento de Recursos H\u00eddricos do Rio Grande do Sul entre 2015 e 2019. Meirelles defende que as atividades agr\u00edcolas n\u00e3o foram um fator de import\u00e2ncia para a trag\u00e9dia, que deve ser explicada pela magnitude das chuvas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTivemos muitos deslizamentos em \u00e1reas de matas, que j\u00e1 estavam consolidadas. Na regi\u00e3o mais alta e preservada do estado, temos milhares de cicatrizes de escorregamento. O solo derreteu, simplesmente perdeu capacidade de suporte por causa da chuva muito intensa. Na regi\u00e3o do Vale do Taquari, a gente v\u00ea pilhas de \u00e1rvores que foram arrancadas. Ent\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o da agricultura com esse evento \u00e9 zero. Ela n\u00e3o \u00e9 o motor dessa cheia\u201d, diz Fernando Meirelles.<\/p>\n\n\n\n<p>Doutor em recursos h\u00eddricos, o engenheiro civil e professor da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica (PUC-RS), Jaime Federici Gomes, entende que, apesar do papel importante que a vegeta\u00e7\u00e3o desempenha no escoamento de \u00e1gua, n\u00e3o acredita que as interven\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas tenham tido influ\u00eancia nas inunda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs tipos de vegeta\u00e7\u00e3o que est\u00e3o no solo t\u00eam influ\u00eancia em uma das fases do ciclo hidrol\u00f3gico, que \u00e9 a intercepta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua pelas ra\u00edzes. Grandes plantas s\u00e3o um reservat\u00f3rio e jogam parte dessa \u00e1gua para atmosfera. As copas das \u00e1rvores tamb\u00e9m podem interceptar a \u00e1gua&nbsp;antes de ela chegar ao solo. Mas dada a magnitude das chuvas, eu n\u00e3o sei como regi\u00f5es mais florestadas poderiam ter diminu\u00eddo o volume de escoamento. Em um evento desse, com muita \u00e1gua, pode n\u00e3o ter tido quase influ\u00eancia\u201d, diz Jaime.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Sistemas de conten\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Depois de um hist\u00f3rico de enchentes no s\u00e9culo 20, a cidade de Porto Alegre desenvolveu uma s\u00e9rie de recursos estruturais para impedir enchentes. Nesse ponto, n\u00e3o h\u00e1 diverg\u00eancias: ficou claro que o sistema de conten\u00e7\u00e3o de \u00e1guas apresentou falhas agora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs sistemas de prote\u00e7\u00e3o foram projetados na d\u00e9cada de 1970, por causa das cheias de 1941 e de 1967. Ele foi o mais economicamente vi\u00e1vel. Tecnicamente \u00e9 bastante adequado e eficiente. Em Porto Alegre, tem tamb\u00e9m v\u00e1rios diques compat\u00edveis com a cheia de 1941. Mas, desta vez, na hora de fechar as comportas, quando a \u00e1gua ficou acima de quatro metros, elas come\u00e7aram a vazar, tiveram problemas de veda\u00e7\u00e3o e acabaram abrindo. E as casas de bombas, que drenam as \u00e1guas dentro da cidade, devem ter falhado\u201d, analisa o engenheiro Jaime Federici.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs sistemas de prote\u00e7\u00e3o falharam aqui em Porto Alegre por falta de manuten\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o foi superado pela \u00e1gua, j\u00e1 que ela entrou por baixo. Agora em outros sistemas, como os das cidades de S\u00e3o Leopoldo e de Canoas, houve uma passagem da \u00e1gua por cima deles. Ou seja, os crit\u00e9rios de projeto que foram utilizados considerando o passado, agora n\u00e3o t\u00eam mais validade. Eventos est\u00e3o mostrando que, por causa das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, devemos considerar outras m\u00e9tricas e estat\u00edsticas\u201d, complementa o professor Fernando Meirelles.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Rualdo Menegat, a neglig\u00eancia pol\u00edtica ajudou a enfraquecer a capacidade estrutural do estado de lidar com fen\u00f4menos clim\u00e1ticos mais intensos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNas cidades e nos campos, a infraestrutura de energia el\u00e9trica, de \u00e1gua e de prote\u00e7\u00e3o contra as inunda\u00e7\u00f5es est\u00e3o sendo sucateadas nos \u00faltimos tr\u00eas governos estaduais. A companhia de energia el\u00e9trica e de abastecimento de \u00e1gua foram privatizadas. A Secretaria de Meio Ambiente foi incorporada a&nbsp;outra e assumiu papel secund\u00e1rio. O estado n\u00e3o desenvolveu capacidade de intelig\u00eancia estrat\u00e9gica para diminuir os riscos e nos tornamos mais vulner\u00e1veis\u201d, diz Rualdo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conhecimento e preven\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Quando se fala em preven\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o de danos, os especialistas entendem que \u00e9 poss\u00edvel ao menos minimizar as consequ\u00eancias dos fen\u00f4menos clim\u00e1ticos com treinamento adequado de profissionais e da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o temos uma Defesa Civil eficiente. O que vimos foi que ela est\u00e1 desestruturada, com dificuldades, mal aparelhada, sucateada. E sem mecanismos de alerta. Al\u00e9m disso, temos uma popula\u00e7\u00e3o&nbsp;que, por n\u00e3o haver programas estrat\u00e9gicos para ela, tem problemas de acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o\u201d, diz Rualdo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cAs defesas civis de alguns munic\u00edpios, principalmente desses que foram afetados, t\u00eam uma ou duas pessoas. Poucos t\u00eam uma Defesa Civil consolidada. E a popula\u00e7\u00e3o precisa de treinamento para saber se defender\u201d, diz Jaime Federici. \u201cMas, economicamente, n\u00e3o vejo solu\u00e7\u00f5es definitivas para esse tipo de evento. Vamos imaginar o exemplo do Jap\u00e3o, que lida com furac\u00f5es, terremotos e maremotos, e tem toda uma estrutura para conviver com esses eventos extremos. Isso \u00e9 algo que temos que come\u00e7ar a estabelecer na cultura. Precisamos aprender a nos defender, lidar com essas situa\u00e7\u00f5es e, aos poucos, fazer as adapta\u00e7\u00f5es estruturais\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Fonte: Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em cen\u00e1rios de crise, \u00e9 comum a busca por causas e responsabilidades. A trag\u00e9dia das chuvas no Rio Grande do Sul, que provocaram a morte de quase 150 pessoas at\u00e9 agora, t\u00eam levantado diferentes reflex\u00f5es. Trata-se de um evento natural excepcional, imposs\u00edvel de prever e evitar? 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