{"id":121031,"date":"2024-04-19T10:20:46","date_gmt":"2024-04-19T13:20:46","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=120309"},"modified":"2024-04-19T10:20:46","modified_gmt":"2024-04-19T13:20:46","slug":"ensino-a-distancia-estimula-inclusao-indigena-mas-qualidade-e-desafio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=121031","title":{"rendered":"Ensino \u00e0 dist\u00e2ncia estimula inclus\u00e3o ind\u00edgena, mas qualidade \u00e9 desafio"},"content":{"rendered":"\n<p>Aos 21 anos, a ind\u00edgena Macuxi, Roberta de Lima, acredita que fez uma boa escolha quando ingressou no curso a dist\u00e2ncia de tecnologia em empreendedorismo. Ela conta que iniciou os estudos no meio da pandemia de covid-19, quando as universidades paralisaram suas atividades presenciais. Mas esse n\u00e3o foi o \u00fanico motivo que impactou em sua escolha. N\u00e3o h\u00e1 universidades nos arredores de sua comunidade, no interior de Roraima.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de vir para a capital&#8221;, explica ela, justificando sua decis\u00e3o de se matricular na UniCesumar, institui\u00e7\u00e3o vinculada \u00e0 mantenedora Vitru Educa\u00e7\u00e3o. A situa\u00e7\u00e3o mudou e hoje, se aproximando da conclus\u00e3o do curso, ela vive em Boa Vista. Roberta conta que o ensino superior lhe abriu portas e atualmente faz est\u00e1gio no polo de ensino a dist\u00e2ncia da pr\u00f3pria UniCesumar, o que lhe garante renda.<\/p>\n\n\n\n<p>O polo de ensino a dist\u00e2ncia nada mais \u00e9 do que um centro de apoio, devidamente credenciado pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC), onde \u00e9 oferecido suporte aos estudantes desse cursos. Ali podem ocorrer algumas aulas, ocorridas de forma pontual, e tamb\u00e9m atividades avaliativas, cuja aplica\u00e7\u00e3o presencial \u00e9 obrigat\u00f3ria. Al\u00e9m disso, no polo, \u00e9 realizado atendimento t\u00e9cnico e pedag\u00f3gico. Segundo Roberta, o est\u00e1gio \u00e9 o primeiro passo e ela sonha com um emprego de carteira assinada. Futuramente quer abrir o pr\u00f3prio neg\u00f3cio.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Antes de estudar, eu j\u00e1 tinha meu pr\u00f3prio neg\u00f3cio, que era o artesanato. Tamb\u00e9m trabalhava em agricultura. Pra mim, entrar no curso foi muito bom. Abriu a minha mente e tamb\u00e9m melhorou a quest\u00e3o financeira, consegui o est\u00e1gio. O ensino a dist\u00e2ncia \u00e9 um meio de levar mais conhecimento para a minha comunidade, para o meu povo. E para os outros povos tamb\u00e9m. Acho que falta mais infraestrutura para atender a comunidade. Mais computadores, mais livros e mais cursos, na verdade, porque muitos deles ainda n\u00e3o chegaram aqui&#8221;, cobra ela.<\/p>\n\n\n\n<p>A demanda por mais cursos \u00e9 atestada pelos n\u00fameros. De acordo com dados do&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/radioagencia-nacional\/educacao\/audio\/2023-10\/cursos-de-ensino-distancia-crescem-189-em-quatro-anos\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior 2022<\/a>, divulgado no ano passado pelo MEC, o crescimento da modalidade a dist\u00e2ncia no Brasil \u00e9 impressionante, o que vem garantindo tamb\u00e9m aumento do n\u00famero de estudantes de gradua\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Simultaneamente, essa expans\u00e3o tem gerado preocupa\u00e7\u00f5es acerca da qualidade do ensino. Em uma d\u00e9cada, o n\u00famero de cursos saltou mais de 700% chegando a 9.186. O total de estudantes ingressantes por ano saiu de 1.113.850 em 2012 para 4.330.934 em 2022. \u00c9 um salto de 288%. Considerando os dados de 2022, 95,7% das novas matr\u00edculas ocorreram em cursos ministrados por institui\u00e7\u00f5es privadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A quantidade de matr\u00edculas no ensino superior realizada por alunos autodeclarados ind\u00edgenas tamb\u00e9m disparou ao longo da \u00faltima d\u00e9cada. Um&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/educacao\/noticia\/2023-04\/matriculas-de-indigenas-em-universidades-subiram-374-de-2011-a-2021\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">levantamento&nbsp;<\/a>do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior do Brasil (Semesp), realizado esmiu\u00e7ando os microdados do&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/educacao\/noticia\/2022-11\/ensino-distancia-cresce-474-em-uma-decada-diz-inep\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior 2021<\/a>, indicou que houve uma evolu\u00e7\u00e3o de 374% ao longo de uma d\u00e9cada, entre 2011 e 2021. O avan\u00e7o, no entanto, foi impulsionado sobretudo pelas matr\u00edculas em cursos presenciais. Ainda assim, nesse per\u00edodo, entre o contingente dos ind\u00edgenas que conclu\u00edram o curso e pegaram o diploma, 19,8% foram na modalidade a dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que esse percentual ainda cres\u00e7a bastante nos pr\u00f3ximos anos com as novas possibilidades da tecnologia moderna. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) indicam que o uso da internet no Brasil alcan\u00e7ou em 2022 com recorde de 87,2% das pessoas com 10 anos ou mais. A amplia\u00e7\u00e3o do acesso ao mundo online \u00e9 pr\u00e9-requisito para a expans\u00e3o dos cursos da modalidade a dist\u00e2ncia, que vem registrando seu crescimento mais robusto justamente nos \u00faltimos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2018,&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/educacao\/noticia\/2018-05\/ensino-a-distancia-no-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">uma pesquisa<\/a>&nbsp;divulgada pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), entidade que representa grande parte do ensino superior particular do pa\u00eds, mostrava que o n\u00famero de novas matr\u00edculas em cursos ministrados na modalidade a dist\u00e2ncia crescia em uma velocidade mais acelerada do que nos cursos presenciais. Em 2022, os dados do MEC mostram que houve 3,1 milh\u00f5es de alunos ingressantes na gradua\u00e7\u00e3o a distancia, quase o dobro dos 1,6 milh\u00e3o que deram entrada na modalidade presencial.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas embora o acesso ao ambiente&nbsp;<em>online<\/em>&nbsp;venha sendo poss\u00edvel a partir de lugares cada vez mais remotos, ainda h\u00e1 significativas assimetrias regionais. Na regi\u00e3o Norte, por exemplo, apenas 58,6% dos domic\u00edlios na \u00e1rea rural fazia utiliza\u00e7\u00e3o de internet. \u00c9 nessa regi\u00e3o que se concentram 44,48% da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena do pa\u00eds segundo o Censo Demogr\u00e1fico 2022.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/hzhFTTNIIUf1_EYLXJkgu94T3SI=\/463x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/atoms\/image\/982006-26102015-dsc_3653.jpg?itok=xFuOFUln\" alt=\"Palmas (TO) - Ind\u00edgenas brasileiros fazem cursos de inform\u00e1tica na \" style=\"width:545px;height:auto\" title=\"Marcelo Camargo\/Ag\u00eancia Brasil\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sup><sub>\u00a0 Ensino a dist\u00e2ncia nas comunidades &#8211; Marcelo Camargo\/Ag\u00eancia Brasil<\/sub><\/sup><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>&#8220;O ensino a dist\u00e2ncia tem a capacidade de chegar mais nas comunidades, mas tem que ter uma infraestrutura m\u00ednima local que muitas aldeias n\u00e3o t\u00eam. Mesmo no estado de S\u00e3o Paulo, que tem mais recursos, \u00e0s vezes elas n\u00e3o t\u00eam computadores e acesso \u00e0 internet. O ensino a dist\u00e2ncia \u00e9 uma democratiza\u00e7\u00e3o importante. Mas h\u00e1 desafios n\u00e3o apenas relacionados \u00e0 qualidade do ensino. A metodologia \u00e9 uma quest\u00e3o: \u00e9 bastante desafiador realizar um acompanhamento mais pr\u00f3ximo do aluno. Tem a quest\u00e3o de como esses estudantes podem se apropriar da tecnologia e do material did\u00e1tico. Isso \u00e9 bem importante para povos que falam outras l\u00ednguas&#8221;, diz Talita Lazarin, pesquisadora do Centro de Estudos Amer\u00edndios da Universidade de S\u00e3o Paulo (CEstA-USP).<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 tenha fixado a educa\u00e7\u00e3o como um direito de todos e um dever do Estado, foram as a\u00e7\u00f5es afirmativas das \u00faltimas duas d\u00e9cadas que viabilizaram um maior acesso dos ind\u00edgenas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o superior. Isso inclui, por exemplo, as cotas, as pol\u00edticas de assist\u00eancia estudantil e a cria\u00e7\u00e3o de licenciaturas espec\u00edficas para a educa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Elas ajudaram a driblar barreiras sociais e culturais que dificultavam o acesso \u00e0s institui\u00e7\u00f5es tradicionais de ensino.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, o ensino a dist\u00e2ncia passou a ser um nova ferramenta de acelera\u00e7\u00e3o dessa inclus\u00e3o. De acordo com Talita Lazarin, ela vem se mostrando eficaz n\u00e3o apenas para contornar barreiras sociais e culturais, mas tamb\u00e9m geogr\u00e1ficas. Nestes cursos, os estudantes n\u00e3o precisam deixar suas comunidades, que muitas vezes se localizam em \u00e1reas de dif\u00edcil acesso, e ainda podem conciliar os estudos com suas atividades comunit\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2021, o levantamento do Semesp mostrava que 0,5% do total de alunos do ensino superior haviam se autodeclarado ind\u00edgenas. Considerando os dados demogr\u00e1ficos, esse percentual se torna significativo. Conforme o Censo 2022, cujos resultados foram divulgados pelo IBGE no ano passado, os ind\u00edgenas residentes&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2023-08\/censo-2022-brasil-tem-169-milhao-de-indigenas\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">no Brasil representam 0,83% da popula\u00e7\u00e3o total<\/a>&nbsp;do pa\u00eds. De toda forma, a diferen\u00e7a desses percentuais mostra que h\u00e1 espa\u00e7o para o crescimento no n\u00famero de matr\u00edculas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Qualidade<\/h2>\n\n\n\n<p>Desde o ano passado, o MEC tem informado que estuda reavaliar o marco regulat\u00f3rio do ensino a dist\u00e2ncia no Brasil. A decis\u00e3o foi anunciada ap\u00f3s os resultados do Programa Internacional de Avalia\u00e7\u00e3o de Estudantes (Pisa) 2022, que \u00e9 aplicado em diferentes pa\u00edses sob a coordena\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE). Os resultados do Brasil indicaram um alto percentual de alunos sem conhecimentos b\u00e1sicos em matem\u00e1tica e ci\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>A maior aten\u00e7\u00e3o se voltou para os cursos de licenciatura, nos quais os universit\u00e1rios se formam para atuar como professor no Ensino Fundamental ou Ensino M\u00e9dio. O desempenho no Pisa gerou preocupa\u00e7\u00e3o porque uma boa forma\u00e7\u00e3o destes futuros professores \u00e9 considerada essencial para melhorar a qualidade da aprendizagem das crian\u00e7as e jovens da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dado do Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior 2022, divulgado no ano passado pelo MEC, tamb\u00e9m \u00e9 apontado como justificativa para uma maior aten\u00e7\u00e3o ao assunto. A modalidade de&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/educacao\/noticia\/2023-10\/mais-de-80-dos-alunos-de-licenciatura-estao-em-cursos-distancia\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ensino a dist\u00e2ncia absorveu 81% de todos os alunos<\/a>&nbsp;ingressantes em cursos de licenciatura em 2022. Nas institui\u00e7\u00f5es privadas, esse percentual chega a 93,7%.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante do cen\u00e1rio, o&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/educacao\/noticia\/2023-12\/ministerio-da-educacao-estuda-fim-dos-cursos-de-licenciatura-100-ead\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">MEC sinaliza que ir\u00e1 proibir a oferta de licenciatura 100% a dist\u00e2ncia<\/a>&nbsp;e deve estabelecer um m\u00ednimo obrigat\u00f3rio de atividades presenciais. A expectativa \u00e9 que ocorra assim uma melhora na qualidade dos cursos. A medida parece estar alinhada o que se observa em resultados do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), por meio do qual uma prova escrita \u00e9 aplicada aos alunos para avalia\u00e7\u00e3o dos cursos de ensino superior brasileiros. Os dados costumam indicar um&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/educacao\/noticia\/2020-10\/universidades-federais-e-cursos-presenciais-tem-melhor-desempenho\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">desempenho melhor<\/a>&nbsp;dos estudantes de cursos presenciais e de semipresenciais em compara\u00e7\u00e3o com os de cursos 100% a dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Celly Saba, professora e coordenadora do curso de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas a dist\u00e2ncia oferecido pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), acredita que as universidades p\u00fablicas n\u00e3o devem sofrer com as mudan\u00e7as. Ela d\u00e1 o exemplo do Rio de Janeiro. No estado, as diferentes universidades p\u00fablicas &#8211; como a Uerj, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), entre outras &#8211; se uniram para desenvolver uma plataforma de ensino a dist\u00e2ncia. Foi assim criado o Centro de Educa\u00e7\u00e3o Superior a Dist\u00e2ncia do Rio de Janeiro (Cederj), por meio do qual os cursos s\u00e3o administrados.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nossas licenciaturas j\u00e1 possuem atividades pr\u00e1ticas obrigat\u00f3rias que o aluno tem que fazer na escola. A gente cumpre a legisla\u00e7\u00e3o que exige um est\u00e1gio supervisionado na escola. Sabemos que algumas universidade n\u00e3o cumprem, mas n\u00e3o \u00e9 o nosso caso&#8221;, afirma. Ainda assim, ela faz pondera\u00e7\u00f5es.&#8221;No geral, estou vendo a postura do MEC com bons olhos. \u00c9 preciso fixar regras porque quando a gente fala de licenciatura, estamos falando de forma\u00e7\u00e3o de educadores. Mas eu entendo que de uma maneira geral para o Brasil, algumas regras podem ser puxadas. Principalmente se a gente entende que tem aluno que \u00e9 trabalhador e que mora longe da regi\u00e3o metropolitana, o que gera dificuldade maior de acesso. Talvez fosse o caso de pegar um pouquinho mais leve na quest\u00e3o da carga hor\u00e1ria presencial&#8221;, avalia.<\/p>\n\n\n\n<p>Celly destaca que o fato de ser ministrado a dist\u00e2ncia n\u00e3o pode significar que haver\u00e1 menor exig\u00eancia. &#8220;N\u00f3s observamos um fen\u00f4meno muito parecido com o que ocorre nos nossos cursos presenciais. A evas\u00e3o geralmente acontece logo no in\u00edcio do curso, at\u00e9 o segundo per\u00edodo. Porque h\u00e1 um mito de que ensino \u00e0 dist\u00e2ncia \u00e9 f\u00e1cil. E n\u00e3o \u00e9 bem assim. Quando eles percebem que n\u00e3o v\u00e3o conseguir se adaptar, eles desistem. Porque tem que estudar, tem que ter toda uma disciplina, cumprir um cronograma&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela tamb\u00e9m levanta dados que desafiam a ideia de que o mercado de trabalho menospreza esses cursos e n\u00e3o valoriza os concluintes. &#8220;O que a gente observa \u00e9 que os alunos da educa\u00e7\u00e3o a distancia levam um pouquinho mais de tempo para concluir. Mas posso dizer que 90% dos concluintes na Uerj v\u00e3o para o mercado de trabalho rapidamente e a maioria deles vai para aquela \u00e1rea do curso que ele fez. \u00c9 uma grande satisfa\u00e7\u00e3o que a gente&#8221;, diz ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Mantenedora da UniCesumar e da Uniasselvi, a Vitru Educa\u00e7\u00e3o encomendou \u00e0 consultoria Nomads um estudo sobre a inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho de seus alunos e ex-alunos da modalidade de ensino a dist\u00e2ncia. Os resultados indicam que 15,5% obtiveram seu primeiro emprego na \u00e1rea em que estavam cursando e outros 16% relataram que os estudos lhe proporcionaram uma promo\u00e7\u00e3o ou um mudan\u00e7a no cargo que possu\u00edam antes. Houve ainda outros 17,5% que afirmaram ter obtido aumento salarial.<\/p>\n\n\n\n<p>A discuss\u00e3o mobiliza diversos pesquisadores. Mas apesar das preocupa\u00e7\u00f5es com a qualidade, h\u00e1 geralmente um reconhecimento de que a modalidade a dist\u00e2ncia ser\u00e1 fundamental para ajudar o pa\u00eds a alcan\u00e7ar metas do Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (PNE). Uma delas estabelece que 33% dos jovens de 18 a 24 anos estejam na educa\u00e7\u00e3o superior. No \u00faltimo balan\u00e7o divulgado, de 2022, esse percentual era de 25,3%.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Perfil<\/h2>\n\n\n\n<p>O levantamento da Abmes realizado em 2018 agregou dados que indicam diferen\u00e7as no perfil dos estudantes de gradua\u00e7\u00e3o conforme a modalidade de ensino. Os jovens respondiam majoritariamente pelas matr\u00edculas de educa\u00e7\u00e3o presencial: 53% tinham at\u00e9 30 anos. J\u00e1 no ensino a dist\u00e2ncia, 67% tinham mais de 30 anos. Al\u00e9m disso, nessa modalidade, havia um maior percentual de alunos que trabalhavam, que estudaram em escolas p\u00fablicas e que situavam-se nas classes C e D.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca em que esses dados foram divulgados, o ent\u00e3o vice-presidente da ABMES, Celso Niskier, avaliou que a expans\u00e3o do ensino a dist\u00e2ncia promovia uma inclus\u00e3o educacional de pessoas mais velhas que j\u00e1 estavam no mercado de trabalho. &#8220;Esse p\u00fablico precisa da flexibilidade da educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia para completar o curso superior\u201d, disse Niskier, que hoje preside a ABMES.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso espec\u00edfico dos ind\u00edgenas, faltam estudos mais detalhados. N\u00e3o h\u00e1 pesquisas que se dedicaram a tra\u00e7ar um perfil desses ingressantes em cursos de ensino a dist\u00e2ncia. Celly Saba revela uma dificuldade na Uerj. &#8220;O que acontece \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o temos esses alunos identificados. Se entraram pela reserva de vagas, consta que \u00e9 cotista. E a cota \u00e9 para negros, oriundos de escolas p\u00fablicas, povos ind\u00edgenas e quilombolas. Ent\u00e3o os ind\u00edgenas ficam nesse meio&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Talita Lazarin, h\u00e1 elementos na cultura ind\u00edgena que tamb\u00e9m podem explicar a boa aceita\u00e7\u00e3o do ensino a dist\u00e2ncia por parte deste p\u00fablico. &#8220;Ele permite que as pessoas continuem vivendo nas suas comunidades enquanto est\u00e3o estudando. Porque umas das grandes quest\u00f5es para estudantes ind\u00edgenas \u00e9 ter que morar fora. Para v\u00e1rios povos, \u00e9 muito dif\u00edcil passar muito tempo longe da fam\u00edlia e da comunidade. Por outro lado, ir\u00e1 demandar dele uma maior independ\u00eancia. O ensino a dist\u00e2ncia exige que a pessoa fa\u00e7a um planejamento de estudo, tenha uma disciplina&#8221;, diz a pesquisadora do CEstA-USP.<\/p>\n\n\n\n<p>Lazarin tamb\u00e9m observa que, mesmo ap\u00f3s formados, eles geralmente querem seguir vivendo na aldeia, como profissionais atuando, por exemplo, na escola ou no posto de sa\u00fade comunit\u00e1rio. Nos polos de Feij\u00f3 e Tarauac\u00e1, no Acre, as universidades vinculadas \u00e0 Vitru Educa\u00e7\u00e3o atendem cerca de 200 estudantes ind\u00edgenas oriundos de sete aldeias. O gestor acad\u00eamico Geisson de Souza, que atua no suporte a esses alunos, faz constata\u00e7\u00e3o similar.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eles n\u00e3o querem se transformar em pessoas brancas. Eles querem assimilar a nossa cultura, assim como n\u00f3s queremos aprender a deles, sem deixar de ter a pr\u00f3pria ess\u00eancia. A procura maior \u00e9 por Pedagogia, Gest\u00e3o P\u00fablica, Enfermagem e&nbsp;&nbsp; Biomedicina. O que a gente observa \u00e9 que 99% dos nossos alunos ind\u00edgenas n\u00e3o querem fazer uma gradua\u00e7\u00e3o para passar em um concurso e vir para a cidade, porque tem mais oportunidade. Eles querem absorver o conhecimento, se tornar um profissional de excel\u00eancia e voltar para aplicar esse conhecimento com o intuito de melhorar a vida das pessoas que cresceram com eles&#8221;, explicou.<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia nas universidades vinculadas \u00e0 Vitru Educa\u00e7\u00e3o refletem os dados do levantamento do Semesp realizado em 2021. Eles indicam que os cursos a dist\u00e2ncia com mais estudantes ind\u00edgenas eram pedagogia (21,3%) e administra\u00e7\u00e3o (7,0%). &#8220;A evas\u00e3o do aluno ind\u00edgena \u00e9 pelo menos 50% menor do que dos demais alunos. Assiduidade e pagamento tamb\u00e9m. \u00c9 quase 90% a adimpl\u00eancia deles, o que indica que est\u00e3o levando o curso a s\u00e9rio, est\u00e3o realmente interessados&#8221;, acrescenta Geisson. Segundo ele, esses estudantes afirmam que concluir o ensino superior e compartilhar seus conhecimentos \u00e9 uma forma de mostrar o compromisso com sua comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 a expectativa da ind\u00edgena macuxi Consolata Gregorio, de Normandia (RR). \u201cSou falante da l\u00edngua maimu, e escolhi o curso Pedagogia porque sou professora, trabalho com crian\u00e7as da educa\u00e7\u00e3o infantil e fundamental ensinando a elas a l\u00edngua materna Macuxi. Quero aprofundar mais o que eu j\u00e1 tenho de conhecimento\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 21 anos, a ind\u00edgena Macuxi, Roberta de Lima, acredita que fez uma boa escolha quando ingressou no curso a dist\u00e2ncia de tecnologia em empreendedorismo. Ela conta que iniciou os estudos no meio da pandemia de covid-19, quando as universidades paralisaram suas atividades presenciais. 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