{"id":117925,"date":"2024-02-13T14:52:23","date_gmt":"2024-02-13T17:52:23","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=117416"},"modified":"2024-02-13T14:52:23","modified_gmt":"2024-02-13T17:52:23","slug":"carnaval-turistico-do-rio-tambem-nasceu-da-luta-politica-dos-sambistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=117925","title":{"rendered":"Carnaval tur\u00edstico do Rio tamb\u00e9m nasceu da luta pol\u00edtica dos sambistas"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/5yB4Zg1VzLbgRtKhkB4PRieYc5k=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/carnavais_do_brasil_texteira.png?itok=urQ_1aSD\" alt=\"banner carnaval 2024 \" style=\"width:610px;height:auto\" title=\"Arte\/Ag\u00eancia Brasil\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub><sup>Arte\/Ag\u00eancia Brasil<\/sup><\/sub><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>O carnaval tur\u00edstico no Rio de Janeiro, desde o in\u00edcio dos anos de 1930, foi uma articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que envolveu diversos setores, incluindo a imprensa e as agremia\u00e7\u00f5es carnavalescas, mercado de turismo e o Estado. Essa \u00e9 uma das conclus\u00f5es de pesquisa da doutora em Hist\u00f3ria Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Fabiana Martins Bandeira. \u201cEssa disputa aconteceu em torno de qual seria o carnaval que seria tur\u00edstico\u201d, explicou Fabiana<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1580442&amp;o=node\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1580442&amp;o=node\"><\/p>\n\n\n\n<p>Intitulada&nbsp;<em>Modernidade Negra na Pra\u00e7a Onze: escolas de samba, a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a constru\u00e7\u00e3o do carnaval tur\u00edstico<\/em>, a pesquisa destaca a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das escolas de samba ao longo de todo o processo estudado, que se inicia em 1932, no primeiro desfile na Pra\u00e7a Onze, e vai at\u00e9 1948, pegando o per\u00edodo do p\u00f3s-guerra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA principal conclus\u00e3o a que eu chego \u00e9 que o acesso \u00e0 cidadania foi buscado por esses sambistas, negros, pobres, moradores de comunidades e sub\u00farbios, atrav\u00e9s do seu carnaval, do seu desfile, e como essas comunidades foram agentes pol\u00edticos de sua hist\u00f3ria. Elas lutaram, atrav\u00e9s dos seus desfiles, por maior acesso \u00e0 cidadania e o reconhecimento do valor do samba das escolas de samba para a forma\u00e7\u00e3o da brasilidade e o reconhecimento do valor do desfile para o crescimento desse carnaval pol\u00edtico\u201d, disse em entrevista \u00e0&nbsp;<strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Fabiana, h\u00e1 o entendimento de que foi uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que ficou mais evidente no p\u00f3s-guerra, com a consci\u00eancia do apoio dos sambistas para as elei\u00e7\u00f5es, em especial nos anos de 1945 e 1947, quando as escolas de samba atuaram diretamente nas campanhas pol\u00edticas, com algumas lideran\u00e7as sendo alvo de repress\u00f5es e persegui\u00e7\u00f5es no governo de Eurico Dutra, principalmente ap\u00f3s sua aproxima\u00e7\u00e3o com o Partido Comunista do Brasil (PCB).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cidadania<\/h2>\n\n\n\n<p>\u201cTudo isso mostra para a gente como essa a\u00e7\u00e3o de participa\u00e7\u00e3o no carnaval tur\u00edstico e nos rumos pol\u00edticos da vida brasileira, as escolas de samba colocaram na rua discursos pol\u00edticos\u201d, avalia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a guerra, as escolas cantaram sambas de apoio ao soldado combatente, sambas contra o nazifascismo. \u201cTudo isso foi mostrando que, mais do que simplesmente ter o direito de desfilar era, tamb\u00e9m, o direito de ser reconhecido como cidad\u00e3o, como brasileiro, e ter o samba de morro, como a imprensa chamava na \u00e9poca, reconhecido como um grande valor cultural para o pa\u00eds\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Boa parte da tese de Fabiana se concentra no per\u00edodo do Estado Novo de Get\u00falio Vargas. Foi quando ela observou o maior movimento de mostrar o samba no exterior e trazer tamb\u00e9m estrangeiros para a pol\u00edtica da boa vizinhan\u00e7a com os Estados Unidos para verem o samba. Em algumas agremia\u00e7\u00f5es, ocorreram visitas importantes, como a do diretor Walt Disney, que esteve na Portela, em 1941; e do diretor de cinema Orson Welles, em 1942, que participou do carnaval na Pra\u00e7a Onze e tentou fazer um filme sobre a festa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAcho que a maior contradi\u00e7\u00e3o que eu observei nesse per\u00edodo do Estado Novo e da pol\u00edtica da boa vizinhan\u00e7a \u00e9 sobre a identidade racial brasileira. De um lado, o samba vai sendo elevado no discurso da grande imprensa como representativo de uma suposta democracia brasileira e de uma suposta harmonia racial brasileira, que a gente sabe que \u00e9 mito. Naquele per\u00edodo, o samba servia a esses prop\u00f3sitos da propaganda\u201d, argumenta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Fabiana apurou, por\u00e9m, que o que estava sendo mostrado no exterior era, principalmente, um samba branco, feito por sambistas e artistas brancos, como Carmem Miranda e o Bando da Lua, que participaram de movimenta\u00e7\u00f5es oficiais brasileiras, como, por exemplo, na Feira Mundial de Nova York, entre 1939 e 1940.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Contradi\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo que o carnaval de rua popular e os desfiles das escolas de samba mostram a rela\u00e7\u00e3o entre brasilidade e samba, o Estado brasileiro poucas vezes, naquele momento, associou isso ao sambista negro morador dos morros e sub\u00farbios do Rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPode-se dizer que o samba foi valorizado, mas o sambista continuou por muito tempo sendo estigmatizado, perseguido. O Estado Novo tem grandes contradi\u00e7\u00f5es, tanto na quest\u00e3o da exporta\u00e7\u00e3o do samba, do reconhecimento, da valora\u00e7\u00e3o do samba como t\u00edpica m\u00fasica nacional, como no pr\u00f3prio cotidiano da cidade do Rio de Janeiro, durante a prefeitura do interventor Henrique Dodsworth, nomeado pelo presidente Vargas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a pesquisadora, foi na gest\u00e3o de Henrique Dodsworth como prefeito do ent\u00e3o Distrito Federal que as negocia\u00e7\u00f5es das agremia\u00e7\u00f5es das escolas de samba com o Estado ficaram mais dificultadas, com o governo tentando se apropriar da rec\u00e9m-constru\u00edda Avenida Presidente Vargas, espa\u00e7o importante para a cultura popular, para fazer auto homenagem ao presidente e ao legado de seu governo. Ao mesmo tempo, se intensificavam as persegui\u00e7\u00f5es policiais e as regras eram cada vez mais r\u00edgidas para o carnaval de rua, enquanto havia incentivo para o carnaval interno de bailes em cassinos luxuosos e hot\u00e9is na orla de Copacabana, enquanto se enfraquecia o apoio ao carnaval popular, incluindo as escolas de samba.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Pacto<\/h2>\n\n\n\n<p>As agremia\u00e7\u00f5es de samba acabaram se organizando em associa\u00e7\u00e3o e estabeleceram uma esp\u00e9cie de pacto pol\u00edtico com o Estado para que essas comunidades tivessem algum benef\u00edcio. Durante a prefeitura de Pedro Ernesto, antes do golpe de Estado, o pacto pol\u00edtico come\u00e7ou a ser constru\u00eddo, com a inaugura\u00e7\u00e3o, em janeiro de 1936, da Escola Municipal Humberto de Campos, na Mangueira, primeira unidade de ensino aberta em uma comunidade. J\u00e1 a partir do Estado Novo, esse pacto pol\u00edtico vai sendo rompido. Esse pacto significava que as escolas de samba entrariam com toda a sua festa, e sua performance para engrandecer e tornar mais interessante o carnaval tur\u00edstico que estava sendo oficializado na prefeitura e cobrariam da municipalidade melhorias nas suas condi\u00e7\u00f5es de vida e de acesso \u00e0 cidadania.<\/p>\n\n\n\n<p>O argumento de Fabiana Bandeira foi sendo constru\u00eddo em cima, principalmente, de uma percep\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das escolas de samba, \u201cdo associativismo negro das escolas de samba como um motor para uma luta por cidadania de homens e mulheres negros, suburbanos, moradores de comunidades, que viviam sob uma sociedade extremamente racista, onde o discurso da eugenia era ainda muito forte\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 uma luta antirracista que tem muitos desafios, contradi\u00e7\u00f5es e dificuldades, mas tem tamb\u00e9m a vit\u00f3ria de ter conseguido se transformar no principal evento desse carnaval pol\u00edtico\u201d, explica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na an\u00e1lise de Fabiana, a hegemonia das escolas no final dos anos de 1940 j\u00e1 \u00e9 not\u00e1vel e coloca o sambista negro como o agente dessa hist\u00f3ria, s\u00edmbolo do carnaval, da cultura popular. Para a pesquisadora, no entanto, essa \u201c\u00e9 uma luta cont\u00ednua\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, o carnaval carioca se consolidou como um neg\u00f3cio, al\u00e9m de ter se tornado um grande momento de arrecada\u00e7\u00e3o para o Estado. O evento tamb\u00e9m se estabeleceu como mercado de trabalho para muitas pessoas, que trabalham o ano inteiro para colocar as escolas de samba na avenida, na vis\u00e3o de Fabiana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Fabiana, nos \u00faltimos anos as vozes e as intelectualidades negras v\u00eam ganhando espa\u00e7o novamente, deixando para tr\u00e1s uma fase pol\u00eamica de enredos patrocinados nas escolas de samba.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisadora entende, contudo, que ainda h\u00e1 uma perman\u00eancia do racismo em muitos discursos da imprensa, principalmente pela mentalidade persistente na hist\u00f3ria recente que relaciona a figura do carnavalesco a um intelectual branco, oriundo da academia, considerado por muitos como mente criadora nas escolas de samba, deixando na invisibilidade os artistas das pr\u00f3prias agremia\u00e7\u00f5es que trabalham para a realiza\u00e7\u00e3o do carnaval.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Fonte: Ag\u00eancia Brasil<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O carnaval tur\u00edstico no Rio de Janeiro, desde o in\u00edcio dos anos de 1930, foi uma articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que envolveu diversos setores, incluindo a imprensa e as agremia\u00e7\u00f5es carnavalescas, mercado de turismo e o Estado. 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