{"id":115326,"date":"2023-12-12T10:38:55","date_gmt":"2023-12-12T13:38:55","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=114616"},"modified":"2023-12-12T10:38:55","modified_gmt":"2023-12-12T13:38:55","slug":"brasil-e-um-dos-paises-mais-perigosos-para-defensores-de-direitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=115326","title":{"rendered":"Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses mais perigosos para defensores de direitos"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cEu sofri uma tentativa de homic\u00eddio dentro deste territ\u00f3rio&nbsp;no come\u00e7o deste ano\u201d. O relato \u00e9 do xondaro ruwixa Tiago Henrique Karai Djekupe, da Terra Ind\u00edgena Jaragu\u00e1. Xondaro ruwixa significa l\u00edder&nbsp; entre os guerreiros, em guarani. Na semana em que a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos completa 75 anos, a&nbsp;<strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>, em parceria com a&nbsp;<strong>TV Brasil<\/strong>&nbsp;e com a&nbsp;<strong>R\u00e1dio Nacional<\/strong>, publica uma s\u00e9rie de reportagens sobre o tema.&nbsp;<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1571694&amp;o=node\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1571694&amp;o=node\"><\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, o papel de ativistas e movimentos sociais \u00e9 imprescind\u00edvel&nbsp;para que direitos e garantias fundamentais saiam do papel. Mas ser um defensor de direitos humanos no Brasil significa correr riscos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Levantamento das organiza\u00e7\u00f5es Terra de Direitos e Justi\u00e7a Global mostrou que, de&nbsp;2019 a&nbsp;2022, o Brasil registrou 1.171 casos de viol\u00eancia contra defensores de direitos humanos, com 169 pessoas assassinadas. Uma marca que coloca o Brasil entre os pa\u00edses mais perigosos do mundo para quem defende os direitos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c[Situa\u00e7\u00f5es de] Pessoas passarem na frente da aldeia e amea\u00e7ar com arma. Apontar. Falar na regi\u00e3o que minha cabe\u00e7a estava a pr\u00eamio. Isso \u00e9 o que vem trazendo essa dificuldade de eu conseguir&#8230; viver mesmo\u201d, declara emocionado o jovem, de 29 anos, que \u00e9 estudante de arquitetura e urbanismo da Escola da Cidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Karai Djekupe \u00e9 porta-voz de uma hist\u00f3ria ancestral. \u201cEu sou nascido neste territ\u00f3rio, Terra Ind\u00edgena Jaragu\u00e1. Nosso territ\u00f3rio, que foi invadido em 1580 pelo bandeirante Afonso Sardinha, traficante de escravo angolano e conhecido como matador de Carij\u00f3s. Carij\u00f3s que eram como nos chamavam, o povo Mbya Guarani\u201d, conta. A hist\u00f3ria \u00e9 antiga e complexa, mas ajuda a entender o contexto em Karai Djekup\u00e9 passou a correr risco de vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Hist\u00f3rico<\/h2>\n\n\n\n<p>A Terra Ind\u00edgena Jaragu\u00e1 fazia parte de um aldeamento do s\u00e9culo 17, o Barueri, informa&nbsp;relat\u00f3rio da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai)&nbsp;de 2013, assinado pelo antrop\u00f3logo Spensy Pimentel. Depois de s\u00e9culos de coloniza\u00e7\u00e3o, muitos ind\u00edgenas morreram, e alguns adotaram a cultura dos colonizadores. Outros resistiram. Nos anos de 1960, a fam\u00edlia de Djekup\u00e9 foi expulsa de outro aldeamento guarani, no Sul do Brasil. Os av\u00f3s seguiram, \u00e0 for\u00e7a, para S\u00e3o Paulo, onde encontraram guaranis remanescentes do Barueri no Pico do Jaragu\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Jaragu\u00e1 \u00e9 um pedacinho preservado da Mata Atl\u00e2ntica&nbsp;em plena cidade de S\u00e3o Paulo. O territ\u00f3rio foi demarcado em 1987 com apenas 1,7 hectare, a menor reserva ind\u00edgena do Brasil. Em 2015, \u00faltimo ano do governo de Dilma Rousseff, a TI foi ampliada e passou a ter 532 hectares. Em 2016, uma portaria do ent\u00e3o presidente Michel Temer voltou a reduzir o territ\u00f3rio, dessa vez para 3 hectares. Os ind\u00edgenas recorreram \u00e0 Justi\u00e7a e uma liminar suspendeu a vig\u00eancia da portaria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O texto de 2016, no entanto, nunca foi, de fato&nbsp;revogado, e o fantasma da redu\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio segue assombrando os guaranis do Jaragu\u00e1. A reserva ind\u00edgena \u00e9 cercada por grandes rodovias, lugar estrat\u00e9gico para os servi\u00e7os de log\u00edstica e cobi\u00e7ado pelo mercado imobili\u00e1rio. Karai Djekupe aprendeu cedo que os interesses econ\u00f4micos de gente poderosa alimentam a disputa.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/ffD1HPo2tNqHDXq0RqBLJ5BoMMU=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/img_7958.jpg?itok=AfKDq14K\" alt=\"S\u00e3o Paulo (SP), 30\/05\/2023 - Interdi\u00e7\u00e3o da rodovia Bandeirantes pelos ind\u00edgenas do Jaragu\u00e1 contra a PL 490 do marco temporal. Foto: Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\" style=\"width:616px;height:auto\" title=\"Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub><sup>S\u00e3o Paulo &#8211; Interdi\u00e7\u00e3o da Rodovia dos Bandeirantes pelos ind\u00edgenas do Jaragu\u00e1 &#8211; Foto\u00a0<strong>Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil (Arquivo)<\/strong><\/sup><\/sub><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando eu tinha por volta de 9 anos de idade chegou aqui a fam\u00edlia Pereira Leite. A fam\u00edlia de Joaquim Pereira Leite, que foi ministro do Meio Ambiente do [ex-presidente Jair] Bolsonaro. Ele veio reivindicando uma das \u00e1reas que estavam se formando na aldeia, que chama de Tekoa. A Tekoa Pyau fica encostada na Rodovia dos Bandeirantes e ele chegou falando que queria fazer ali uma transportadora, acesso para a rodovia, que a \u00e1rea ali era dele, era uma gleba. E ele queria que nosso xeram\u00f5i [meu av\u00f4] aceitasse um punhado de dinheiro em troca de sair da terra. Nosso xeram\u00f5i falou que n\u00e3o se trocava terra por papel e que a gente ia ficar ali, que aquela terra era sagrada para n\u00f3s\u201d, lembra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Luta por direitos<\/h2>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia Pereira Leite \u00e9 apenas uma das 15&nbsp;que reivindicam a propriedade de partes da Terra Ind\u00edgena Jaragu\u00e1. Karai Djekupe entrou para a lista de defensores de direitos humanos que s\u00e3o v\u00edtimas de viol\u00eancia no Brasil. O levantamento da Terra de Direitos e da Justi\u00e7a Global mostra que corre ainda mais risco quem luta pelo direito \u00e0 terra ou defende o meio ambiente, como \u00e9 o caso dos guarani em S\u00e3o Paulo. De cada dez casos de agress\u00f5es, oito foram de pessoas envolvidas em conflitos fundi\u00e1rios. Do total, 140 defensores e defensoras foram assassinados por defender&nbsp;seus territ\u00f3rios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips, mortos no Vale do Javari em 2022, entram nessa estat\u00edstica. Mas o levantamento ainda n\u00e3o inclui o assassinato de Maria Bernadete Pac\u00edfico, a M\u00e3e Bernadete, lideran\u00e7a do Quilombo de Pitanga dos Palmares, na Bahia, assassinada em 2023 na frente dos netos, no dia 17 de agosto. N\u00e3o \u00e9 por acaso que ind\u00edgenas e quilombolas est\u00e3o&nbsp;entre as principais v\u00edtimas na luta por direitos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEla [a luta por direitos] est\u00e1 atravessada por uma dicotomia, vamos dizer assim, que persiste desde o nosso passado escravagista, que \u00e9 uma dicotomia entre os algu\u00e9m e os ningu\u00e9m\u201d, diz&nbsp;o psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/3TKmBrAzBEB7MzcCE5IGwvi6_0c=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/img_8574.jpg?itok=dNl9Mzxb\" alt=\"S\u00e3o Paulo (SP), 30\/05\/2023 - A pol\u00edcia militar atira bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo contra manifestantes guaranis do Jaragu\u00e1 que protestavam contra o  PL 490 do marco temporal na rodovia dos Bandeirantes. Foto: Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\" style=\"width:583px;height:auto\" title=\"Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub><sup>S\u00e3o Paulo &#8211; Pol\u00edcia Militar atira bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo contra manifestantes guaranis do Jaragu\u00e1\u00a0&#8211; Foto\u00a0<strong>Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/sup><\/sub><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Foi com l\u00e1grimas nos olhos e a voz embargada que Karai Djekupe disse&nbsp;o que significa ser uma pessoa alcan\u00e7ada pelos direitos humanos. \u201cAcho que \u00e9 o direito de viver. N\u00e3o ter medo que algu\u00e9m mate seu filho. N\u00e3o ter medo de sair na rua e algu\u00e9m te dar um tiro. Por voc\u00ea simplesmente querer defender a sua forma de ser. Acho que \u00e9 isso. Desculpa\u201d, disse \u00e0 reportagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Dunker questiona esse cen\u00e1rio em que os direitos s\u00e3o garantidos parcialmente, numa l\u00f3gica excludente. \u201cAqueles que t\u00eam lugar onde moram, t\u00eam habite-se, que constroem segundo as leis, pagam impostos, s\u00e3o reconhecidos pelo Estado, t\u00eam acesso \u00e0 sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. E aqueles que est\u00e3o no universo do, digamos assim, vida sem valor, que podem ser matadas impunemente, que s\u00e3o ningu\u00e9m, que s\u00e3o quase gente. A gente for\u00e7a a m\u00e3o ao dizer isso porque esse \u00e9 um regime t\u00e1cito de nega\u00e7\u00e3o de direitos humanos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A reportagem tentou contato com o ex-ministro do Meio Ambiente Joaquim Pereira Leite, mas n\u00e3o conseguiu at\u00e9 a libera\u00e7\u00e3o desta mat\u00e9ria.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu sofri uma tentativa de homic\u00eddio dentro deste territ\u00f3rio&nbsp;no come\u00e7o deste ano\u201d. O relato \u00e9 do xondaro ruwixa Tiago Henrique Karai Djekupe, da Terra Ind\u00edgena Jaragu\u00e1. Xondaro ruwixa significa l\u00edder&nbsp; entre os guerreiros, em guarani. 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