{"id":112608,"date":"2023-10-26T10:09:27","date_gmt":"2023-10-26T13:09:27","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=112608"},"modified":"2023-10-26T10:09:27","modified_gmt":"2023-10-26T13:09:27","slug":"pesquisador-ve-relacao-entre-seca-no-rio-negro-e-aquecimento-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=112608","title":{"rendered":"Pesquisador v\u00ea rela\u00e7\u00e3o entre seca no Rio Negro e aquecimento global"},"content":{"rendered":"\n<p><br>H\u00e1 dois dias, o Porto de Manaus anunciou que o Rio Negro havia atingido novo n\u00edvel m\u00ednimo hist\u00f3rico. Sua cota ficou abaixo de 13 metros pela primeira vez desde 1902, quando come\u00e7aram as medi\u00e7\u00f5es. As imagens impressionam: partes que costumam ficar cobertas pelo leito do rio est\u00e3o tomadas por bancos de areia.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1562914&amp;o=node\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1562914&amp;o=node\"><\/p>\n\n\n\n<p>A estiagem prolongada que atinge o Amazonas deixa diversas comunidades vulner\u00e1veis. De acordo com&nbsp;<a href=\"http:\/\/link:%20https\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2023-10\/seca-no-amazonas-afeta-mais-de-630-mil-pessoas\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">boletim<\/a>&nbsp;do governo estadual,&nbsp;divulgado no domingo (22), 59 dos 62 munic\u00edpios amazonenses est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia e 158 mil fam\u00edlias foram afetadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O cen\u00e1rio coincide com o momento em que se intensifica o&nbsp;fen\u00f4meno&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2023-06\/chance-de-el-nino-forte-e-de-56-diz-agencia-dos-estados-unidos\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">El Ni\u00f1o<\/a>, caracterizado pelo enfraquecimento dos ventos al\u00edsios (que sopram de leste para oeste) e pelo aquecimento anormal das \u00e1guas superficiais da por\u00e7\u00e3o leste da regi\u00e3o equatorial do Oceano Pac\u00edfico. Essas mudan\u00e7as na intera\u00e7\u00e3o entre a superf\u00edcie oce\u00e2nica e a baixa atmosfera ocorrem em intervalos de tempo que variam entre tr\u00eas e sete anos e t\u00eam consequ\u00eancias no tempo e no clima em diferentes partes do planeta. Isso porque a din\u00e2mica das massas de ar no Oceano Pac\u00edfico adota novos padr\u00f5es de transporte de umidade, afetando a temperatura e a distribui\u00e7\u00e3o das chuvas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o g\u00e9ografo Marcos Freitas, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), s\u00f3 o El Ni\u00f1o n\u00e3o explica a situa\u00e7\u00e3o do Rio Negro. Para ele, h\u00e1 ind\u00edcios de que a estiagem no Amazonas est\u00e1 relacionada com o aquecimento global do planeta. Isso porque&nbsp;as chuvas na regi\u00e3o do Rio Negro s\u00e3o formadas sobretudo pelos&nbsp;deslocamentos de massas de ar provenientes n\u00e3o do Oceano Pac\u00edfico, mas do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/G5mUDbLLKFYqFi0qIstMICT9Hf4=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/_dsc0116.jpg?itok=Ch12DD4U\" alt=\"Bras\u00edlia (DF) - 26\/10\/2023- O g\u00e9ografo Marcos Freitas, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Pesquisador v\u00ea rela\u00e7\u00e3o entre seca no Rio Negro e aquecimento global\nFoto: Coppe\/UFRJ\" style=\"aspect-ratio:1.5110220440881763;width:692px;height:auto\" title=\"Coppe\/UFRJ\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Bras\u00edlia &#8211; O g\u00e9ografo Marcos Freitas, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro&nbsp;&#8211; Foto&nbsp;<strong>Coppe\/UFRJ<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Especialista em recursos h\u00eddricos, Marcos Freitas \u00e9 coordenador executivo do Instituto Virtual Internacional de Mudan\u00e7as Globais (Ivig) do Instituto Alberto Luiz Coimbra de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Engenharia (Coppe), vinculado \u00e0 UFRJ. Desde 2008, tamb\u00e9m \u00e9 integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC), organiza\u00e7\u00e3o criada em 1988 no \u00e2mbito da&nbsp;Organiza\u00e7\u00e3o&nbsp;das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU).<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2010, quando o Rio Negro enfrentou&nbsp;outra seca severa, o pesquisador coordenou um estudo para avaliar a situa\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca, o rio&nbsp;registrou n\u00edvel de 13,36 metros, o menor da sua hist\u00f3ria at\u00e9 ser superado na estiagem deste ano. Com a experi\u00eancia de quem analisou de forma aprofundada a situa\u00e7\u00e3o de 13 anos atr\u00e1s, Marcos Freitas conversou com a<strong>&nbsp;Ag\u00eancia Brasil&nbsp;<\/strong>e avaliou o cen\u00e1rio atual.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>&nbsp;&#8211; O avan\u00e7o do El Ni\u00f1o pode explicar a seca do Rio Negro ou \u00e9 poss\u00edvel associ\u00e1-la tamb\u00e9m ao aquecimento global?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcos Freitas<\/strong>&nbsp;&#8211; Quando estudei a seca de 2010, mapeei o aquecimento do Oceano Atl\u00e2ntico, do&nbsp;Oceano Pac\u00edfico e tamb\u00e9m me debrucei sobre as mudan\u00e7as no uso do solo&nbsp;com o desmatamento. Naquele ano, as \u00e1guas do Atl\u00e2ntico tiveram aumento m\u00e9dio de temperatura mais acentuado. Mas o m\u00e1ximo que havia de desvio de temperatura era de 1 a 1,5 grau. Talvez com algum repique a 2 graus. Nesse ano, temos um repique no Oceano Atl\u00e2ntico de 4 graus, no hemisf\u00e9rio norte. J\u00e1 o El Ni\u00f1o tem provocado um repique de 2 graus no Oceano Pac\u00edfico, e ainda n\u00e3o \u00e9 o auge, que ser\u00e1 mais pr\u00f3ximo de dezembro. O&nbsp;que a gente observa \u00e9 que o clima, na regi\u00e3o do Rio Negro, sofre forte influ\u00eancia das massas de ar que v\u00eam do Oceano Atl\u00e2ntico. Ent\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel correlacionar sim essa seca com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Estamos notando um repique muito forte no Oceano Atl\u00e2ntico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>&nbsp;&#8211; Sem chuvas, os inc\u00eandios florestais podem aumentar?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcos Freitas<\/strong>&nbsp;&#8211; O per\u00edodo de queimadas tende a se alongar, com bolhas de calor tanto no Pac\u00edfico quanto&nbsp;no Atl\u00e2ntico&nbsp;impedindo a entrada de umidade. Essas bolhas de calor geram evapora\u00e7\u00e3o forte e fazem com que as chuvas caiam mais para dentro dos oceanos e menos dentro do continente. Alimenta, por exemplo, uma temporada de furac\u00e3o que atinge a costa dos Estados Unidos. H\u00e1 alguma compensa\u00e7\u00e3o com chuvas a montante no Peru, provocadas pelo El Ni\u00f1o, que podem repercutir na bacia do Rio Madeira. Mas boa parte da chuva que cai na Amaz\u00f4nia vem do Atl\u00e2ntico. As massas de ar que vem do Atl\u00e2ntico s\u00e3o barradas pela Cordilheira dos Andes, fazendo chover sobre a Amaz\u00f4nia. Sem essas chuvas, h\u00e1 um efeito muito nefasto na Amaz\u00f4nia, principalmente na por\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima ao Rio Negro. Os efeitos do El Ni\u00f1o s\u00e3o sentidos mais no Peru, na Bol\u00edvia e nas fronteiras desses pa\u00edses com o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>&nbsp;&#8211; Podemos afirmar que os inc\u00eandios florestais tamb\u00e9m influenciam no clima?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcos Freitas<\/strong>&nbsp;&#8211; Sim. \u00c9 uma via de m\u00e3o dupla. O clima mais seco favorece o desmatamento. E o desmatamento tamb\u00e9m estimula esse clima mais seco. Quando vai se aproximando o ver\u00e3o amaz\u00f4nico, as chuvas v\u00e3o diminuindo. Isso acontece a partir de maio. E o pico \u00e9 agosto, setembro. S\u00e3o os meses mais secos. E \u00e9 nessa \u00e9poca que aumenta o desmatamento. Se o per\u00edodo seco se alonga, a Amaz\u00f4nia fica mais vulner\u00e1vel \u00e0s queimadas. Com a falta de chuva, a madeira das \u00e1rvores vai perdendo umidade. Al\u00e9m disso, as chuvas na Amaz\u00f4nia tamb\u00e9m s\u00e3o resultado da evapotranspira\u00e7\u00e3o das plantas que est\u00e3o ali. \u00c1rvores, principalmente. Com a remo\u00e7\u00e3o dessas plantas pelas queimadas, h\u00e1 um efeito de redu\u00e7\u00e3o de chuvas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil&nbsp;<\/strong>&#8211; J\u00e1 existem estudos e modelos clim\u00e1ticos que simulam os impactos que o aquecimento global pode provocar especificamente na Amaz\u00f4nia?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcos Freitas<\/strong>&nbsp;&#8211; V\u00e1rios dos modelos consideram a c\u00e9lula amaz\u00f4nica j\u00e1 h\u00e1 algum tempo. No in\u00edcio, havia muita incerteza e agora h\u00e1 maior precis\u00e3o. Se a gente conseguir reduzir bruscamente a nossa taxa de desmatamento e estimular o retorno de vegeta\u00e7\u00e3o na \u00e1rea que foi desmatada, podemos ter um efeito positivo de adapta\u00e7\u00e3o, recuperando alguma umidade. Se continuar a aumentar a taxa, teremos uma a\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de redu\u00e7\u00e3o de umidade. Ent\u00e3o, do ponto de vista das popula\u00e7\u00f5es, voc\u00ea tem que separar aquelas que est\u00e3o nas grandes cidades daquelas que est\u00e3o nas \u00e1reas isoladas. Muitas comunidades ribeirinhas, por exemplo, n\u00e3o t\u00eam energia el\u00e9trica por fio. H\u00e1 geradores que precisam de combust\u00edvel. Com os rios secos e o transporte por embarca\u00e7\u00e3o inoperante, pode ter desabastecimento de combust\u00edvel. E sem energia el\u00e9trica, a preserva\u00e7\u00e3o de alimentos \u00e9 afetada, bem como a qualidade de vida das comunidades. Ent\u00e3o, seria preciso se precaver para maior aumento do isolamento: apoiar o uso de energia renov\u00e1vel no interior, estimular a conserva\u00e7\u00e3o de alimentos e outras medidas que permitam \u00e0s popula\u00e7\u00f5es atravessar esses per\u00edodos mais dif\u00edceis.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Fonte: Ag\u00eancia Brasil<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 dois dias, o Porto de Manaus anunciou que o Rio Negro havia atingido novo n\u00edvel m\u00ednimo hist\u00f3rico. Sua cota ficou abaixo de 13 metros pela primeira vez desde 1902, quando come\u00e7aram as medi\u00e7\u00f5es. As imagens impressionam: partes que costumam ficar cobertas pelo leito do rio est\u00e3o tomadas por bancos de areia. 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