{"id":111868,"date":"2023-10-13T15:32:25","date_gmt":"2023-10-13T18:32:25","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=111868"},"modified":"2023-10-13T15:32:25","modified_gmt":"2023-10-13T18:32:25","slug":"naturalistas-amadores-contribuem-com-descobertas-cientificas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=111868","title":{"rendered":"Naturalistas amadores contribuem com descobertas cient\u00edficas"},"content":{"rendered":"\n<p>J\u00falio Cesar Ribeiro e sua namorada caminhavam pela regi\u00e3o do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. A ideia era apenas conhecer uma nova cachoeira, em uma \u00e1rea pr\u00f3xima da casa dos av\u00f3s dela. O jovem \u00e9 um amante da natureza e tem como hobby fotografar o mio ambiente.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1560712&amp;o=node\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1560712&amp;o=node\"><\/p>\n\n\n\n<p>Como sempre faz nessas trilhas, J\u00falio come\u00e7ou a fazer seus registros de esp\u00e9cies vegetais em um pared\u00e3o rochoso, nas proximidades da cachoeira. \u201cMe bateu uma curiosidade. Pensei: \u2018naqueles pared\u00f5es rochosos, pode ter alguma coisa bacana\u2019 [para fotografar]. Na minha curiosidade, vi essa planta, que parecia um capim-gordura, toda peludinha\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais adiante, J\u00falio encontrou mais esp\u00e9cimes daquela planta diferente, desta vez com flor. \u201cAli eu tive a certeza que era uma esp\u00e9cie de planta nova. Na hora, fiquei encantado com as caracter\u00edsticas da planta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquela n\u00e3o era uma experi\u00eancia in\u00e9dita para o jovem mineiro. Ele vive em uma \u00e1rea pr\u00f3diga para a descoberta de novas esp\u00e9cies e j\u00e1 registrara, anteriormente, v\u00e1rias plantas desconhecidas para a ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele j\u00e1 sabia o que fazer nessa situa\u00e7\u00e3o. Mandou as fotos para especialistas na flora da regi\u00e3o para a identifica\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie. Para a surpresa dos cientistas, aquela esp\u00e9cie era diferente de tudo o que conheciam. Era uma brom\u00e9lia, mas ao mesmo tempo, n\u00e3o se parecia com outras esp\u00e9cies desta fam\u00edlia bot\u00e2nica, devido \u00e0s suas folhas cobertas de pelos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s an\u00e1lise das caracter\u00edsticas da planta, principalmente de sua flor, pesquisadores confirmaram que era uma brom\u00e9lia, batizada de&nbsp;<em>Krekananthus ribeiranus<\/em>, em homenagem ao jovem descobridor.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa ali\u00e1s \u00e9 a segunda esp\u00e9cie de brom\u00e9lia descrita neste ano, que foi descoberta por J\u00falio. Antes da brom\u00e9lia-peluda, ele j\u00e1 tinha encontrado uma&nbsp;<em>Stigmatodon enigmaticus<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cEu trabalho como guia tur\u00edstico na regi\u00e3o h\u00e1 uns oito anos e estou sempre junto com os pesquisadores que v\u00eam fazer pesquisas aqui, ent\u00e3o isso me agrega muito conhecimento. Para quem gosta de natureza, n\u00e3o h\u00e1 nem palavras para descrever a sensa\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia de descobrir uma nova esp\u00e9cie de planta. \u00c9 muito prazeroso estar l\u00e1 descobrindo novas plantas\u201d, diz o jovem, que pretende estudar biologia e se especializar em brom\u00e9lias e orqu\u00eddeas.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Uma d\u00e9cada antes, J\u00falio era apenas uma crian\u00e7a quando participou de uma expedi\u00e7\u00e3o com o pai e outro explorador amador, o ge\u00f3grafo Reginaldo Vasconcelos, em que foi avistada, na mesma regi\u00e3o, uma planta carn\u00edvora nova.<\/p>\n\n\n\n<p>Vasconcelos registrou imagens da planta e postou em um grupo de identifica\u00e7\u00e3o na rede social Facebook, o DetWeb, que re\u00fane especialistas nas mais diversas fam\u00edlias bot\u00e2nicas e observadores amadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m naquela ocasi\u00e3o, confirmou que se tratava de uma nova esp\u00e9cie, chamada de Drosera magnifica, que usa got\u00edculas pegajosas em suas folhas para aprisionar insetos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNaquele dia chuvoso, est\u00e1vamos eu, o especialista em brom\u00e9lias Elton Leme, Edmilson Caetano Ribeiro e seu filho J\u00falio C\u00e9sar. Nesse dia fotografei os exemplares da Drosera magnifica. Aquela planta me chamou muito aten\u00e7\u00e3o. Depois, postei a foto no grupo onde logo alguns entendedores se manifestaram\u201d, conta Reginaldo. \u201cA natureza \u00e9 simplesmente surpreendente! Quando vamos para as expedi\u00e7\u00f5es \u00e9 como se acendesse uma chama dentro de n\u00f3s, escutamos o chamado da natureza e percebemos toda sutil informa\u00e7\u00e3o do ambiente. Descobrir uma esp\u00e9cie nova em dias atuais \u00e9 um copo de esperan\u00e7a\u201d, conta o ge\u00f3grafo.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00falio C\u00e9sar e Reginaldo s\u00e3o o que os pesquisadores chamam de cientistas cidad\u00e3os (ou cidad\u00e3os cientistas), naturalistas amadores que observam e registram a natureza, ajudando a ci\u00eancia com novas descobertas e com o monitoramento do meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cA gente chama de cidad\u00e3o cientista a pessoa que n\u00e3o tem a forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica na \u00e1rea de pesquisa, mas que tem essa curiosidade sobre o mundo natural que se envolvem, de algum jeito, no levantamento de quest\u00f5es como a identifica\u00e7\u00e3o das plantas, a distribui\u00e7\u00e3o delas etc\u201d, afirma Paulo Gonella, pesquisador da Universidade Federal de S\u00e3o Jo\u00e3o Del-Rei (UFSJ), que participou da descri\u00e7\u00e3o das duas esp\u00e9cies de brom\u00e9lias e da planta carn\u00edvora.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Reginaldo Vasconcelos, por exemplo, n\u00e3o chega a ser um amador, j\u00e1 que \u00e9 formado em Geografia, uma ci\u00eancia humana. E, apesar de n\u00e3o ter uma forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica em ci\u00eancias biol\u00f3gicas, j\u00e1 contabiliza, segundo ele pr\u00f3prio, a descoberta de 60 novas esp\u00e9cies de plantas, sendo a primeira uma orqu\u00eddea chamada de&nbsp;<em>Encyclia oliveirana<\/em>, h\u00e1 duas d\u00e9cadas. Sua \u00faltima descoberta foi a&nbsp;<em>Merianthera calyptrata<\/em>, descrita em agosto deste ano.<\/p>\n\n\n\n<p>As redes sociais s\u00e3o uma importante ferramenta para o compartilhamento de informa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas entre cidad\u00e3os comuns e pesquisadores. Os celulares com c\u00e2meras acopladas tamb\u00e9m permitiram uma amplia\u00e7\u00e3o dos registros fotogr\u00e1ficos da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAntes de a gente ter as redes sociais, a gente j\u00e1 tinha os f\u00f3runs de discuss\u00e3o na internet. Num desses f\u00f3runs, foram postadas as primeiras fotos de uma planta carn\u00edvora que depois a gente confirmou ser nova, a&nbsp;<em>Drosera chimaera<\/em>, descrita em 2014. Outra descoberta muito legal feita nesse mesmo f\u00f3rum de plantas carn\u00edvoras que foi, na verdade, uma redescoberta: a&nbsp;<em>Drosera ascendens<\/em>, uma esp\u00e9cie descrita originalmente em 1820 e nunca mais tinha sido vista, at\u00e9 que essas fotos foram divulgadas no f\u00f3rum\u201d, conta Gonella.<\/p>\n\n\n\n<p>No pa\u00eds, existe uma Rede Brasileira de Ci\u00eancia Cidad\u00e3 (RBCC), que re\u00fane representantes de institui\u00e7\u00f5es de pesquisa e cidad\u00e3os comuns interessados em contribuir com a ci\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das institui\u00e7\u00f5es que integram a rede, o Instituto Nacional da Mata Atl\u00e2ntica (Inma), por exemplo, mant\u00e9m o Programa Ci\u00eancia Cidad\u00e3, que re\u00fane v\u00e1rios projetos envolvendo cidad\u00e3os cientistas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A iniciativa, que conta com a contribui\u00e7\u00e3o de mais de 2.300 colaboradores, permitiu o mapeamento da ocorr\u00eancia de 600 esp\u00e9cies da fauna do Esp\u00edrito Santo, atrav\u00e9s de projetos como o Cantoria de Quintal, que estimula cidad\u00e3os a registrar a ocorr\u00eancia de anf\u00edbios em seus quintais, atrav\u00e9s de fotos, v\u00eddeos ou \u00e1udios.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cO projeto Cantoria de Quintal incentiva o p\u00fablico a enviar arquivos, sobretudo sonoros, contemplando sapos, r\u00e3s e pererecas que habitam quintais ou arredores de resid\u00eancias. As grava\u00e7\u00f5es s\u00e3o realizadas e enviadas utilizando aparelhos celulares. O projeto foi criado h\u00e1 menos de tr\u00eas anos e j\u00e1 conta com quase 500 arquivos enviados por 120 colaboradores, incluindo esp\u00e9cies raras, amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o, pouco conhecidas pela ci\u00eancia, end\u00eamicas da Mata Atl\u00e2ntica e registros in\u00e9ditos para o munic\u00edpio foco do projeto\u201d, conta o pesquisador do Inma Jo\u00e3o Victor Lacerda.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O cientista cidad\u00e3o funcionaria como uma extens\u00e3o dos bra\u00e7os e olhos do pesquisador, amplificando o alcance da observa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. \u201cO cientista cidad\u00e3o, muitas vezes, possibilita a coleta de dados em regi\u00f5es remotas e\/ou em quantidades que n\u00e3o seriam t\u00e3o cedo atingidas por cientistas profissionais sem essa colabora\u00e7\u00e3o\u201d, afirma Lacerda.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, segundo o pesquisador, essa colabora\u00e7\u00e3o traz impactos positivos tamb\u00e9m para o cidad\u00e3o comum.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEngana-se quem enxerga a ci\u00eancia cidad\u00e3 como uma via de m\u00e3o \u00fanica em que o p\u00fablico \u00e9 considerado um mero instrumento de coleta e envio de dados para atender a demandas cient\u00edficas. Um projeto de ci\u00eancia cidad\u00e3 pode, por exemplo, beneficiar a popula\u00e7\u00e3o envolvendo-a diretamente na busca por compreens\u00e3o e resolu\u00e7\u00e3o de problemas locais, como monitoramento da qualidade da \u00e1gua, altera\u00e7\u00e3o do regime de inc\u00eandios, ou prolifera\u00e7\u00e3o de pragas e insetos vetores de doen\u00e7as\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, Lacerda explica, esse tipo de colabora\u00e7\u00e3o pode facilitar, para a popula\u00e7\u00e3o, a compreens\u00e3o de como a ci\u00eancia funciona, aumentando sua credibilidade junto ao cidad\u00e3o comum. \u201cEsse \u00e9 um tema especialmente caro \u00e0 humanidade moderna, sobretudo no Brasil, onde o negacionismo vem ganhando espa\u00e7o e causando cada vez mais estragos\u201d, completa.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Agencia Brasil <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00falio Cesar Ribeiro e sua namorada caminhavam pela regi\u00e3o do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. 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