{"id":111524,"date":"2023-10-06T16:58:38","date_gmt":"2023-10-06T19:58:38","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=111524"},"modified":"2023-10-06T16:58:38","modified_gmt":"2023-10-06T19:58:38","slug":"brasil-tem-licoes-a-ensinar-ao-mundo-diz-nobel-de-economia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodoplaneta.com.br\/?p=111524","title":{"rendered":"Brasil tem li\u00e7\u00f5es a ensinar ao mundo, diz Nobel de Economia"},"content":{"rendered":"\n<p>O economista norte-americano Michael Kremer recebeu, em 2019, o Nobel de Economia por seu trabalho para aliviar a pobreza global. O pr\u00eamio foi dividido com os tamb\u00e9m economistas Abhijit Banerjee e Esther Duflo. Juntos, eles desenvolveram m\u00e9todos que permitem a\u00e7\u00f5es mais eficazes em \u00e1reas como sa\u00fade infantil e desempenho escolar. Este ano, Kremer participou como convidado de honra da Confer\u00eancia de Ministros da Agricultura das Am\u00e9ricas, em San Jos\u00e9, na Costa Rica. Durante tr\u00eas dias, o encontro discutiu os principais desafios do setor, incluindo temas como sustentabilidade, seguran\u00e7a alimentar, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e agricultura familiar.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1559518&amp;o=node\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1559518&amp;o=node\"><\/p>\n\n\n\n<p>Em solo costa-riquenho, Michael Kremer conversou com a&nbsp;<strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>&nbsp;sobre estrat\u00e9gias para combater a pobreza e as desigualdades globais. Para o economista, o segredo est\u00e1 em dividir grandes problemas em pequenas por\u00e7\u00f5es, criando incentivos certos no lugar de simplesmente alocar mais recursos, por exemplo. \u201c H\u00e1 muitas \u00e1reas onde h\u00e1 lacunas similares entre incentivos comerciais existentes e necessidades sociais. Certamente, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, meio ambiente e as necessidades de adapta\u00e7\u00e3o dos pequenos produtores est\u00e3o no topo dessa lista\u201d. Outros m\u00e9todos destacados por Kremer consistem no uso de linguagem simples e acess\u00edvel e em n\u00e3o generalizar a popula\u00e7\u00e3o de menor renda para que se possa entender as verdadeiras causas da pobreza.<\/p>\n\n\n\n<p>Confira os principais trechos da entrevista:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: O senhor pode detalhar um pouco o projeto que o levou a ganhar o Pr\u00eamio Nobel de Economia?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Michael Kremer<\/strong>: Muito do meu trabalho consiste em princ\u00edpios b\u00e1sicos de experimentos que j\u00e1 foram usados in\u00fameras vezes e testados, por exemplo, em medicamentos e vacinas. Aplicamos esses princ\u00edpios na economia para avaliar diferentes abordagens. Vou dar um exemplo recente. O governo da \u00cdndia estava tentando colher informa\u00e7\u00f5es sobre a natureza do solo e passar essas informa\u00e7\u00f5es aos fazendeiros com orienta\u00e7\u00f5es sobre o uso de fertilizantes. O que pode ser muito \u00fatil, j\u00e1 que os fazendeiros usariam os fertilizantes que precisam e, caso n\u00e3o precisem, n\u00e3o gastariam dinheiro com isso. \u00c9 \u00f3timo na teoria. Mas o que as autoridades indianas decidiram fazer foi testar se isso estava realmente funcionando. Eles tinham um panfleto com todas as informa\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e recomenda\u00e7\u00f5es, Mas descobriram que somente 6% dos fazendeiros conseguiam compreender aquilo. Ent\u00e3o, fizeram a coisa certa: repensaram o formato do material, tentaram usar princ\u00edpios b\u00e1sicos de&nbsp;<em>design<\/em>, para que se tornasse mais \u00fatil para os fazendeiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, decidiram complementar esse panfleto com um \u00e1udio ou v\u00eddeo de um agr\u00f4nomo. O que descobriram depois \u00e9 que todas essas estrat\u00e9gias funcionaram. Quando acrescentaram o \u00e1udio, isso ampliou a compreens\u00e3o dos fazendeiros em 37%. Com o v\u00eddeo, a resposta foi melhor ainda: 41% conseguiram compreender o material. Ficou provado que o v\u00eddeo era t\u00e3o efetivo quanto uma conversa real com um agr\u00f4nomo, sendo que \u00e9 muito mais barato fornecer o v\u00eddeo. O \u00e1udio trouxe bons resultados tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, para fazendeiros com smartphones, o v\u00eddeo passou a ser distribu\u00eddo. E para os que t\u00eam aparelhos mais simples, o \u00e1udio. Consegue-se alcan\u00e7ar muito mais fazendeiros dessa forma e com o mesmo gasto. A \u00cdndia agora est\u00e1 tentando chegar a 100% de compreens\u00e3o por parte dos fazendeiros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: O senhor diria, portanto, que &nbsp;formas simples e claras de comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o o segredo em todo esse processo?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Michael Kremer<\/strong>: Sim. Uma das chaves \u00e9 tentar utilizar informa\u00e7\u00f5es simples e f\u00e1ceis de serem compreendidas. Mas outra \u00e9 n\u00e3o apenas sentar em algum minist\u00e9rio e, de l\u00e1, tentar compreender o que \u00e9 simples e f\u00e1cil de ser compreendido, mas sair de l\u00e1, entrevistar, por exemplo, os fazendeiros, juntando-os em grupos espec\u00edficos. Temos visto cada vez mais governos adotando esse tipo de estrat\u00e9gia. Vou citar como exemplo uma experi\u00eancia que tivemos. Em muitos pa\u00edses, h\u00e1 grandes lacunas na educa\u00e7\u00e3o no que diz respeito \u00e0s capacidades de cada aluno &#8211; sobretudo depois da pandemia de covid, que fez com que os alunos tivessem seu aprendizado comprometido. Isso significa que os professores podem estar ensinando coisas que ainda n\u00e3o s\u00e3o compreendidas pelos alunos. Encontrar meios de fazer com que esses alunos alcancem o aprendizado que estava inicialmente previsto pode ser muito \u00fatil.<\/p>\n\n\n\n<p>A tecnologia pode ajudar nisso. Existem&nbsp;<em>softwares<\/em>&nbsp;de avalia\u00e7\u00e3o pessoal de desempenho e que fazem perguntas ao aluno. Se as respostas forem corretas, surgem perguntas um pouco mais dif\u00edceis. Se as respostas n\u00e3o estiverem corretas, o&nbsp;<em>software<\/em>&nbsp;passa a abordar princ\u00edpios fundamentais da mat\u00e9ria para que o aluno possa aprender essa parte primeiro. H\u00e1 muitas experi\u00eancias de sucesso com esse tipo de iniciativa. Os estudos mostram grande impacto. O desafio \u00e9 implementar isso no sistema escolar. Estamos falando de estudantes, professores, um curr\u00edculo nacional que precisa ser pensado. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de fazer. Mas tentar entender a melhor forma de implementar isso pode trazer benef\u00edcios imensos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: H\u00e1 exemplos de aplica\u00e7\u00e3o desse m\u00e9todo tamb\u00e9m na \u00e1rea da sa\u00fade, certo?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Michael Kremer<\/strong>: Sim. Parte do meu trabalho aborda formas de criar incentivos voltados a empresas farmac\u00eauticas para que trabalhem com quest\u00f5es sanit\u00e1rias que talvez n\u00e3o sejam necessariamente as mais rent\u00e1veis, mas onde h\u00e1 outros fatores sociais importantes. Trata- se de um princ\u00edpio b\u00e1sico: temos tecnologias incr\u00edveis que surgiram, em parte, gra\u00e7as ao financiamento de governos e de empresas privadas que buscam o lucro. Mas h\u00e1 outras necessidades sociais e ambientais que n\u00e3o atraem o setor privado. Nessas situa\u00e7\u00f5es, enquanto sociedade, poder\u00edamos optar por criar estrat\u00e9gias para encorajar as empresas a investirem nisso. E, consequentemente, ter esses produtos dispon\u00edveis para as pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiz parte de um esfor\u00e7o em comum para o desenvolvimento de uma vacina contra o pneumococo, que j\u00e1 matou milh\u00f5es de pessoas. As vacinas existentes foram desenvolvidas com base em cepas comuns, em pa\u00edses de alta renda. Mas n\u00e3o havia vacinas para as cepas de pa\u00edses de m\u00e9dia e baixa renda. Um grupo de financiadores se uniu e juntou US$ 1,5 bilh\u00e3o que poderiam ser usados caso alguma empresa manifestasse interesse em desenvolver vacinas efetivas na maior parte do mundo. Eles ajudariam a financiar a compra dessas vacinas se as empresas concordassem em produzir quantidade suficiente e manter os pre\u00e7os baixos. Isso era atrativo para as empresas porque, no lugar de vender poucas doses de vacinas caras, elas venderiam um n\u00famero muito maior, apesar do pre\u00e7o mais baixo. E fez com que o acesso a essas vacinas, uma vez desenvolvidas, se tornasse muito maior. Tr\u00eas vacinas foram desenvolvidas para combater as cepas em pa\u00edses de m\u00e9dia e baixa renda. Centenas de milhares de crian\u00e7as foram vacinadas. Gra\u00e7as a essas vacinas, a estimativa \u00e9 que cerca de 700 mil vidas tenham sido salvas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Na agricultura, \u00e9 correto dizer que, em muitos casos, a linguagem t\u00e9cnica utilizada em pol\u00edticas p\u00fablicas simplesmente n\u00e3o funciona nas zonas rurais?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Michael Kremer<\/strong>: H\u00e1 muitas \u00e1reas onde h\u00e1 lacunas similares a essa da sa\u00fade, lacunas entre incentivos comerciais existentes e necessidades sociais. Certamente, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o meio ambiente e as necessidades de adapta\u00e7\u00e3o dos pequenos produtores est\u00e3o no topo dessa lista. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas est\u00e3o amea\u00e7ando a vida de muitos fazendeiros. Eles v\u00e3o precisar de sementes diferentes para se adaptar, ferramentas diferentes. \u00c9 preciso criar incentivos para que as empresas possam trabalhar n\u00e3o apenas com os problemas dos fazendeiros donos de grandes terras e planta\u00e7\u00f5es altamente produtivas, mas tamb\u00e9m com os problemas de fazendeiros pobres.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Alguma chance de vermos suas ideias sendo implementadas no Brasil?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Michael Kremer<\/strong>: Eu lidero uma comiss\u00e3o para mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, seguran\u00e7a alimentar e agricultura. Duas coisas com as quais estamos trabalhando &nbsp;s\u00e3o: melhorar o sistema de monitoramento do tempo e a comunica\u00e7\u00e3o digital com os fazendeiros. E o Brasil \u00e9 refer\u00eancia internacional nessas \u00e1reas. Nossa equipe se reuniu em Bras\u00edlia com os minist\u00e9rios do Meio Ambiente, do Desenvolvimento Social, do Desenvolvimento Agr\u00e1rio e da Agricultura. Estamos trabalhando com os Emirados \u00c1rabes Unidos, que v\u00e3o sediar a COP28, e esperamos poder estreitar tamb\u00e9m as parcerias com o Brasil em raz\u00e3o do G20 e da COP30. O Brasil tem muitas li\u00e7\u00f5es para ensinar ao mundo e gostar\u00edamos de facilitar esse processo.<\/p>\n\n\n\n<p>*<em>A rep\u00f3rter viajou a convite do Instituto Interamericano de Coopera\u00e7\u00e3o para a Agricultura (IICA)<\/em>.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O economista norte-americano Michael Kremer recebeu, em 2019, o Nobel de Economia por seu trabalho para aliviar a pobreza global. O pr\u00eamio foi dividido com os tamb\u00e9m economistas Abhijit Banerjee e Esther Duflo. Juntos, eles desenvolveram m\u00e9todos que permitem a\u00e7\u00f5es mais eficazes em \u00e1reas como sa\u00fade infantil e desempenho escolar. 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